Opinião/2022 Joaquim Palmela Maio 14, 2022 (Comments off) (180)

Opinião – Porque Falamos de Ambiente

Habituei-me a fazer quilómetros pelas estradas do nosso concelho, nem sempre escolho itinerários asfaltados e até já me tenho metido em apuros… coisas de quem gosta da terra que o acolheu.

Foi num desses «passeios» que vi funcionários da junta de freguesia a pulverizarem as ervas da beira do caminho, certamente com algum produto à base de glifosato, o tal herbicida que coloca o cidadão comum entre a espada e a parede, sobretudo pelas polémicas contradições entre os relatórios produzidos pelos diversos organismos internacionais de saúde.

Nessas polémicas não quero aqui entrar, porém, lembrei-me dos insetos polinizadores que com este tipo de intervenções, ficam sem o seu principal alimento. E nós, sem o mel que alguns lhes «roubam»…

Não sei que mal trazem à humanidade as ervas dos caminhos, mas sei que mal nos acontecerá se os insetos forem exterminados.

Outro hábito que mantenho é a leitura da imprensa local e regional, de que coleciono todas as páginas que ao Cartaxo se referem: já são algumas caixas… algum dia classifico aquilo tudo… ou não!

Foi numa dessas leituras que me apercebi da publicidade aos automóveis elétricos. E, mais uma vez num dilema, recordo os efeitos prejudiciais para o ambiente, para a agricultura, para a avifauna local, que a mineração do lítio provoca, sem que ainda ninguém se tenha referido ao destino das baterias substituídas.

Não tenho dúvidas sobre a responsabilidade que os automóveis têm na emissão de gases com efeito de estufa, porém, mais outro dilema, vejo as linhas de transportes públicos a serem abolidas e apercebo-me da falta de apoio (e de civilidade em muitos casos) aos transportes não poluentes.

E leio também sobre o abate de uma árvore que conheço, ou melhor, que conhecia, há 47 anos: uma frondosa amoreira que alimentou muitos bichos da seda dos meus alunos.

Não sei que mal trazem à humanidade as árvores, tanto mais sabendo que apenas são os maiores produtores de oxigénio e são essas nossas «Amigas» que conseguem reter a maior quantidade de carbono…

Foi por tudo isto que me achei farto, farto da guerra que estraga a vidinha de muito boa gente: olhei à minha volta e imaginei a sala de aulas onde trabalho, implodida, a capoeira de que cuido, queimada, o escritório de onde escrevo estas linhas, em ruínas… e os caminhos por onde me passeio cheios de escombros, de crateras, de blindados estoirados, de ferros retorcidos… e de corpos mutilados, carbonizados, abandonados.

Eu, de facto estou farto desta desta guerra.

Mas também estou farto de muitas outras que se travam na Eritreia, na Síria, no Afeganistão, na Palestina, no Saara Ocidental, em Moçambique: nunca mais acabam!!

Mas pensei: como se sentirão as crianças inocentes, os jovens idealistas, os adultos empreendedores, vítimas desses horrorosos flagelos?

Lembrando-me deles e olhando para a minha casa, para a minha sala de aulas, para a minha oficina, para a minha rua, e para os meus amigos, para os meus vizinhos, para os meus artistas… deixei de estar farto!

Voltei a arregaçar as mangas, e voltei às ações de repúdio contra a (as) guerra (guerras): por favor, acendam novamente as luzes verde e azul, que desde 24 de janeiro iluminaram as janelas do Salão Nobre do Município, porque, mesmo não sabendo tanta coisa: eu sei que mal trazem à humanidade as ideias totalitárias!!

OpiniãoMário Júlio: Professor do 1º ciclo no Agrupamento D. Sancho I, Pontével

Dirigente associativo dedicado ao Teatro