Programas Joaquim Palmela Fevereiro 4, 2022 (Comments off) (310)

Entrevista a Carlos M. Cunha, ator da TVI

Torres Novas. “Na fase em que estávamos; o bar está fechado, os Comedia não trabalham, é tipo “boia de salvação””

Fomos até Torres Novas conhecer Carlos M. Cunha, ator da TVI e membro dos Comedia a la Carte, cuja vida o fez questionar se estava a tomar as decisões certas na tentativa de saber quem era. Hoje esgota salas de espetáculo e enche a Rua Trás os Muros, em Torres Novas, graças ao seu bar de “cultura ao vivo”. Na telenovela da TVI, “Festa é Festa”, é Isidro, o padre animado de uma aldeia que lhe faz lembrar a sua Azinhaga, terra de Saramago e do pintor Serrão de Faria, como prefere realçar.

Uma entrevista que percorreu a vida de Carlos M. Cunha, perguntas nunca feitas deram azo a reflexão e a confissões inéditas por parte do artista que lamenta ter o seu espaço novamente encerrado, mas que promete ter-nos a todos reunidos em breve.

Queria ser antropólogo, mas o 25 de abril afastou-o dos estudos. Acha que a sua vida de ator lhe deu algo que a antropologia não daria?

Carlos M. Cunha – Não rejo muito a minha vida por aquilo que não consegui fazer ou não fiz, mas sim por aquilo que consegui. Tenho a certeza absoluta de que a vida de ator me deu oportunidades de me realizar enquanto artista, enquanto pessoa. Tantos e tantos antropólogos deste país com uma vida chata atrás de papéis, a imagem que tinha da antropologia era tudo menos isso. Era viajar, conhecer povos diferentes, por isso acho que a troca acabou por ser boa.

Foi militar, trabalhou numa multinacional, e tornou-se artesão. Como é que se troca o que, à partida, é garantido por uma vida possivelmente incerta de procura interior?

CMC – Sabendo que, como diz o poeta [José Régio], “Não sei para onde vou/Sei que não vou por aí”. Era por ali que não queria ir. Na altura senti-me um bocadinho assustado. O que é que vou encontrar? O que é que vou fazer? Será que é o mais correto? Porque, no meio disso tudo, havia uma criança que ia ficar sem o pai todos os dias. Foi um bocadinho aventureiro, mas acho que valeu a pena.

Como foram esses anos em que passou dificuldades, o que retira desse tempo?

CMC – A capacidade de achar que somos um grãozinho de areia. Isso, o Alentejo dá-nos com mais facilidade. Deu-me a contemplação, a meditação, uma capacidade de trabalho que desconhecia que tinha. Para ser artesão, contrariamente ao que muita gente pensa, que és dono da tua vida, e és, é preciso trabalhar muitíssimo. E eu trabalhei muito, gozei muito, viajei muito,… mas deu-me essa resiliência, essa “antes quebrar que torcer” que a rua te dá.

Acabou por ser um trabalho mais solitário…

CMC – Não, porque vivia com outra pessoa, nós dividíamos essa profissão. Aliás, foi ela que me ensinou tudo o que eu sabia. Deixou de ser uma coisa dela e passou a ser uma coisa nossa. Daí há a tergiversar (voltar as costas), sair do eixo e ir até ao teatro de forma natural.

Aos 34 anos começa a colaborar com a companhia de teatro do Chapitô. No que consistia o seu trabalho?

CMC – O trabalho com o Chapitô parte por um convite da companhia para ir fazer um espetáculo a Lisboa, visto que eu vivia em Évora e tinha um grupo de teatro – o Teatro Pim. Organizávamos um festival de teatro anual e nos dois anos convidámos o Chapitô. No segundo ano, o José Carlos Garcia, que é hoje o diretor do teatro Chapitô, convidou-me para ir fazer uma peça a Lisboa, e eu fui. Como logo a seguir a essa peça tinha dinheiro, e soube da chegada a Portugal e ao Chapitô de um dos maiores mestres do teatro físico e do gesto, John Mowat, pedi ao Zé [José Carlos Garcia] se podia ficar mais uns tempos em casa dele. O Zé, em vez de me deixar só ficar na casa dele, falou à Teté [Teresa Ricou, fundadora do Chapitô] que eu já tinha trabalhado com crianças, a Teté agarrou-me e pôs-me a trabalhar no Colégio da Bela Vista (em Lisboa), um centro de reinserção social para crianças em risco.

Depois seguem-se as noites na companhia de Bruno Decorte, ex-proprietário do restaurante do Chapitô, que lhe sugere a comédia de improviso. Junta-se a Ricardo Peres, ex-membro dos Commedia a la Carte, e a César Mourão…

CMC – É exatamente nesse período que estou pelo Chapitô que morre o João Sena, ex-diretor da companhia. A perda do João é gigantesca em toda a estrutura do Chapitô. Ele [João Sena] era muito mais do que um diretor de teatro, era a “cola” de tudo aquilo, tanto que, para substituí-lo, foram precisas muitas pessoas, eu fui uma delas. O Bruno dava-se muito mal com a Teté e eu fazia a ponte entre o restaurante e a escola. Aquilo era um bar/restaurante à noite e durante o dia uma cantina. Como me dava muito bem com o Bruno… todos os vinhos novos, todas as cartas que eram necessárias fazer, eu fazia as degustações. Bebemos muitos vinhos, passámos muitas horas juntos.

Mais tarde empresta-lhe o primeiro andar do restaurante.

CMC – É ele [Bruno Decorte] que tem uma proposta: “por que é que vocês não fundam um teatro de improvisação?” Como ele é francófono (belga), chama-lhe match d’improvisation (jogo de improvisação). O Ricardo [Ricardo Peres], nessa época, estava a acompanhar a namorada e, como não tinha nada para fazer, começa a ir a clubes de improvisação. Quando vem, vem com essa ideia, estou eu com essa ideia, e “Eia, isto é altamente. E se fizéssemos?”. Daí nasce o convite ao César.

Quem é que tomou iniciativa de começarem a “ensaiar” de forma mais séria?

CMC – A iniciativa foi de todos, não há aquela coisa “fui eu que inventei”, isso não existe. Começámos a fazer ensaios e trabalhos; não havia internet, não havia YouTube, não havia nada disso. Havia documentação escrita em inglês que fomos adaptando à nossa linguagem, inclusive linguagem física. Ou seja, muitos dos jogos que começámos a fazer já eram derivações da estrutura da improvisação. Nós não seguimos o método americano, nós criámos uma estrutura própria baseada na improvisação, o nosso espetáculo vive 80 por cento de improvisação. A comunicação com o público faz parte, há estruturas, mas é apenas um fio condutor. Daí os Commedia a la Carte serem um grupo tão único, diferente de 98 por cento dos outros grupos do mundo inteiro.

Foi uma atuação no Café da Ponte, em Alcântara, que vos fez dar o salto para a televisão. Como é que se sucedeu?

CMC – O Melão, dos Excesso, numa “Tertúlia Cor-de-Rosa” (rubrica do antigo talk-show “SIC 10 Horas”), fala de nós ao João Patrício (realizador): “há uns putos no Café da Ponte muito giros, com um projeto muito engraçado, tens de lá ir ver”. O João junta três ou quatro pessoas da televisão e leva-as lá [ao Café da Ponte] para verem o espetáculo. No final do espetáculo convidam-nos para ir ao programa da tarde do dia seguinte. Nós fomos, e o Manolo Bello (produtor de televisão) nesse dia contratou-nos.

Após 20 anos, como se mantém a química do grupo? As esferas pessoais e profissionais misturam-se, ou há uma separação?

CMC – Consegue-se porque temos muito amor à improvisação. Depois, era absurdo não continuarmos apesar de o Ricardo ter saído. Temos público, se o público continua a esgotar as nossas salas, acabar porquê? As esferas pessoais e profissionais não se misturam muito porque o César delineou um caminho muito virado para a televisão. Eu optei por outros caminhos: a formação, trabalhar com outras propostas. Trabalhamos, encontramo-nos, vamos aos aniversários uns dos outros…

Como é que reagiram à saída do Ricardo Peres?

CMC – O Ricardo, por divergências com o produtor, quis sair. Eu tentei demovê-lo, disse-lhe para pedir um ano sabático. Ele não o fez, fez um acordo com o produtor que na altura era dono da marca, e saiu, recebeu o seu dinheiro e foi embora. Encarei mal, porque gostava imenso de trabalhar com o Ricardo.

Quanto a si, como estimula a sua criatividade?

CMC – Estimulo de milhares de maneiras. Neste momento, é tentando tornar este espaço [Drop Bar] num sítio de convívio, onde as pessoas tenham acesso à arte, à cultura, um sítio onde consiga juntar amigos clientes com amigos que são artistas, e fazer aqui uma big party (grande festa). Ou trabalhando com pessoas de 70/80 anos, e fazê-las acreditar que é possível montar um espetáculo sem nada; ou criando filhos, ou dando apoio à namorada… há tanta coisa para se ser criativo.

O que significa o humor para si?

CMC – É óbvio que sou, não pareço, um velho rezingão. O humor é um boneco que eu criei para contrapor com o bonitinho e o bonzinho [César Mourão], e o desorganizado que era o Peres [Ricardo Peres]. Nós tínhamos três personalidades diferentes e eu carreguei na minha, que é o ribatejano duro, rebelde, agressivo, acabo por passar um bocadinho essa imagem. Na realidade, sou muito bem disposto, muito humano, gosto muito de ajudar os outros. Promover os outros é uma das coisas que faço com mais prazer, promover o trabalho dos meus amigos, das pessoas que conheço que merecem ser conhecidas.

Em relação à telenovela “Festa é Festa”, como reagiu ao convite para participar no elenco?

CMC – Na fase em que estávamos; de repente não há nada, o bar está fechado, os Commedia não trabalham, é tipo “boia de salvação”. Estava cheio de medo, porque ouvi falar dos “movimentos” dentro dos grupos de trabalho nas novelas, as “tricas”. Gosto de trabalhar em família, por isso o meu grupo aguenta-se. Temos um monte de discussões – “Onde há amor, há chapada”. Quando sou convidado pelo João [João Patrício] senti que havia ali confiança, e a Cristina [Cristina Ferreira] senti, desde a primeira hora, que acreditava em mim. Mais do que acreditar, acredito que a Cristina gosta de mim como pessoa, então senti-me aconchegado. Fui, fui sem medos, encontrei-me bem. Uma família magnífica, um grupo de atores fantástico.

Pode dizer-se que o Padre Isidro é uma personagem dos Commedia mas com guião?

CMC – É, sim. Adoro quando me calham aqueles personagens que são muito calados, “palhaço pobre” – o gozo sobre si próprio. E o padre Isidro, no meio de tanta loucura, acaba por ser o chato, e eu gosto de ser aquele chato.

Como é a vida de quem é profissional no mundo da ficção nacional?

CMC – Para alguns é boa. Podia ser muito melhor, mas também acho que a vida cá fora poderia ser muito melhor para muita gente. Foi muito bom ter passado por muitas atividades na vida e, tal como nos Estados Unidos, uma pessoa vai para o cinema e antes de ir para o cinema faz montes de coisas, trabalha. Dá-te uma dimensão do que é teres de ganhar “aquele bocadinho assim” para saberes o que é sobreviver com “aquele bocadinho assim”. Dás mais valor, se calhar, a quando ganhares muito. E eu acho que há uma imagem construída de que é fácil chegar lá e ganha-se muito bem. É tudo menos isso, é difícil chegar lá, às vezes pode ser fácil. É muito difícil manter-se lá, e nem toda a gente ganha aquilo que as pessoas pensam. As pessoas têm vidas, às vezes, muito difíceis, portanto, trabalhar na ficção em Portugal não é fácil, mas também não é o mais difícil.

Abriu um bar – o Drop Bar – em Torres Novas, pouco antes da pandemia, com uma forte componente cultural. Como é que surge a simbiose entre si e o seu ex-sócio, João Alexandre, no que toca a este conceito?

CMC – Conheço o João [João Alexandre] há muitos anos, achava-lhe muita piada. Gostei de uma vez eu ter ficado a falar com os donos à porta de onde ele [João Alexandre] trabalhava e quando cheguei ao balcão já tinha a minha bebida preparada exatamente como eu gosto.

A primeira vez que entrei nesta casa [Drop Bar] falei com o dono e disse que quando se cansasse disto eu queria ser a primeira pessoa a ser contactada. O senhor não me deu crédito, já mo afirmou. O João disse-me que isto [Drop Bar] estava para trespasse e eu disse: “João, ‘bora ficar com aquilo”. Fui o investidor e fizemos. Como o João trabalhava atrás do balcão fazia todo o sentido que ficasse com a área do balcão e eu com toda a área que um espaço destes merece: música ao vivo, artes e espetáculo.

Como tenho um grande, um enorme leque de amigos aqui à volta, falámos os dois, ficámos os dois com o espaço. E eu sempre tive essa lógica – poder partilhar com amigos o trabalho e a arte de outros amigos. É óbvio que os meus clientes não são todos meus amigos, mas eu quero que eles se sintam aqui dentro como se fossem meus amigos, como se fossem amigos dos outros amigos que aí estão – a criar bom ambiente; para festejarem juntos, dançarem juntos, dizerem “Olá, boa noite”. Sabes?

E depois essa partilha; trazer bons músicos, bons fotógrafos, bons escultores, bons livros, a uma cidade que tem um défice imenso a esse nível. Este bar em Lisboa seria um sucesso, não tenho dúvidas nenhumas, e aqui é muito difícil, porque em Lisboa tens dois milhões de pessoas para escolher 200 ou 300. Tens um rácio enorme. No Porto, igual. Parece que só em Lisboa e no Porto é que as coisas podem acontecer. Não, é mentira! As coisas podem acontecer aqui e devem acontecer aqui. As pessoas dizem: “ah, isso aqui não dá!”, como os restaurantes de sushi, até que as pessoas daqui começam a ir comer sushi a Lisboa e depois dizem: “se houvesse aqui um sushi, não ia a Lisboa”. Simples.

O que sentiu ao ter de fechar portas cinco semanas depois devido à pandemia?

CMC – Senti que era um dever que tinha com os meus clientes. Primeiro, porque ninguém sabia o que era a pandemia. Depois, acima de tudo, respeito pelos clientes. E depois respeito pela ciência. Há muitos anos, quando tocava o sino a repique, as pessoas iam todas junto da igreja para perceber o que teriam de fazer para ajudar no que quer que fosse. Aqui, o toque a repique é “vão para casa e deixem a ciência trabalhar”. Estávamos num processo mundial. “Ai, perdi isto e deixei de ganhar isto”; muita gente perdeu, muita gente deixou de ganhar, muitos negócios faliram, muitos ganharam à conta disso.

E com o passar do tempo?

CMC – Vem um friozinho na barriga… tens contas para pagar. Mas tens tu e tem toda a gente. Se fosse só uma fatia… agora era o povo todo, estava tudo metido em casa com o seu problema. Houve muita solidariedade, nesse aspeto damos 300 a zero aos restantes países do mundo.

Tive a oportunidade de ler uma publicação sua a respeito da apresentação de um livro no Drop Bar. De acordo com o que escreveu, a adesão não foi a esperada. Como é que vê a relação das pessoas com a cultura?

CMC – Mais do que as pessoas, as instituições. Não posso criticar uma pessoa porque eu próprio estou aqui e sei que hoje está a acontecer alguma coisa cultural aqui à volta e não vou. Não admito que ponho em redes sociais, em montes de sítios; há muitos intelectuais, muitos pseudointelectuais, muitas associações culturais, uma vereação da cultura, e não apareceu ninguém, nem ninguém me mandou um e-mail ou uma mensagem a dizer “não posso”. Se as próprias instituições que deveriam estar não estão, como é que posso exigir que as outras pessoas estejam?

Sente que as pessoas acabam por aderir mais quando já conhecem os artistas?

CMC – Esse fenómeno existe, eu combato-o ferozmente. Era muito fácil trazer aqui colegas meus da televisão, não o faço enquanto o bar não estiver vivo por ele próprio. Os que vieram aqui são já meus amigos, e são eles que se disponibilizam. Não publico. O Manuel Melo veio aqui tocar, mas veio tocar como artista. Se vêm aqui para conhecer famosos, esqueçam lá isso.

Aceitar o que a vida me dá e acrescentar alguma coisa”, podemos terminar com esta sua frase. O que significa?

CMC – O primeiro princípio da improvisação.

Entrevista: Valentina Guedes