Opinião: O buraco da fechadura do comboio

Dizem que a curiosidade matou o gato. É por isso que a Humanidade se limita a espreitar pelo buraco da fechadura, protegendo-se, sem coragem de saltar para a frente do assunto e assumir uma posição. A Humanidade prefere espreitar e, mais tarde, refastelar-se com a exposição do assunto que espiou, sem ter tido a coragem de se revelar. Espreitar pelo buraco da fechadura é uma especialidade da Humanidade, menos sincera e corajosa do que qualquer vulgar bichaneco.

Vem esta prosa a propósito da cena pouco edificante que um trio de jovens protagonizou no comboio da Azambuja. Sobre a cena, já correu alguma tinta nos jornais, mas, mais interessante do que isso, já foram descarregados triliões de bytes em vídeos do ato, de todos os ângulos possíveis! 

Diz a lei portuguesa que voyeurismo e exibicionismo a mais são crime. Mas os passageiros do comboio da Azambuja quiseram lá saber disso! O que interessa agora é que, não estando em causa o comportamento sexual dos rapazes e da rapariga entre si, porque eles e ela lá sabem o que fazem das suas vidas íntimas, está em causa o local que escolheram para se entreterem: um comboio com alguns passageiros, além dos próprios.

E o que fizeram os passageiros? Interromperam os jovens, porque um comboio é um local público e como tal não pode ser usado para práticas sexuais explícitas? Acabaram com o ato? Não! Fizeram melhor do que isso: gravaram com os telemóveis! E foram às autoridades apresentar queixa e entregar a prova do ato, os vídeos que gravaram? Não, fizeram melhor do que isso: publicaram tudo nas redes sociais! E uma vez difundidas imagens, aproveitaram para censurar o comportamento dos três jovens? Não, fizeram muito melhor do que isso: censuraram a rapariga, uma promíscua qualquer que deu o corpo ao manifesto comportamento macho dos garbosos jovens.

Não vou dissertar sobre promiscuidade porque, como disse, cada qual faz o que entende da sua vida íntima, mas impõe-se uma palavra de censura ao machismo coletivo que se apoderou de quem criticou a rapariga. E para quem a criticou a, aqui fica uma pequena “recordatória”: ela não estava exposta sozinha. Além dela, estavam mais dois, entretidos com telemóveis e com ela… Estavam ali três cérebros e, ao que parece, a funcionarem pouco e mal.

O que é que isto tudo tem a ver com gato, com a curiosidade e com o buraco da fechadura?

Nenhum dos cidadãos viajantes teve a coragem de confrontar os jovens com a prática indevida de atos sexuais em público. Ficaram em silêncio. E como quem cala consente, os jovens lá continuaram, percebendo perfeitamente que estavam a ser filmados. Quanto aos passageiros, ficaram com a sua preciosa relíquia, sabe-se lá para que mais, além de a publicarem nas redes sociais.

Esses recatados cidadãos, lá da sua zona de conforto, escondidos atrás de um teclado qualquer, divulgaram à vez as suas obras primas de realização cinematográfica. Portanto, além devoyeurs, violaram a privacidade do grupo de jovens.

E tudo isto serve para dizer que, naquela viagem, ninguém soube comportar-se de forma civilizada naquela carruagem. Nem os mais novos, que perderam completamente a noção da decência; nem os mais velhos não conseguiram responder ao momento com um simples ato de cidadania. E para diante, veremos ainda as autoridades a não conseguirem dar andamento ao processo.

Ora a falta de noções básicas de decência só veio provar que todos os passageiros que participaram neste fait-divers têm mais andamento do que os próprios comboios da CP, que lá veio dizer que sim, que foi num comboio da CP. Pois foi. E a fechadura do comboio tinha um buraco enorme! Chamo-lhe fait-divers, mas na realidade, tudo isto é reflexo de uma sociedade em transição, encantada com as novas tecnologias e com as suas mil possibilidades, mas completamente alheia à educação dos seus filhos, designadamente para lidarem com o que vai saindo da caixa de Pandora chama telemóvel!

Opinião: La Salette Marques,

Consultora de Comunicação.
Autarca na Assembleia Municipal do Cartaxo.

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