Opinião/2022 Joaquim Palmela Março 15, 2022 (Comments off) (256)

Opinião – António Morão – A Guerra na Ucrânia e a Gestão Empresarial

A guerra na Ucrânia representa, acima de tudo e como toda e qualquer guerra, um drama humanitário – para os que se encontram na frente de combate, assim como para os milhões de civis inocentes que a única coisa que desejam é não ter de viver este conflito.

Além disso, a invasão russa provocou a maior crise geopolítica na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, a par do forte travão numa economia que estava finalmente a recuperar da pandemia. Sobre tudo isto muito se tem escrito e comentado!

Menos abordado é o choque na vida das empresas e a necessária resposta ao nível da sua gestão.

A guerra na Ucrânia tem, em meu entender, efeitos imediatos no âmbito dos negócios: perda de mercados, dificuldades de abastecimento e aumento de preços. Para um país como o nosso, a perda dos mercados russo e ucraniano representa uma quebra das exportações na casa dos 200 milhões de euros anuais.

Mas a maior dificuldade sentida pelas empresas prende-se com os abastecimentos. Ucrânia e Rússia encontram-se entre os maiores exportadores mundiais de gás e o petróleo até a uma vasta gama de metais (como o níquel e o alumínio, fundamentais para muitas indústrias), passando por produtos agrícolas essenciais como o milho e os óleos vegetais.

Deixar de contar com os fornecimentos desses dois países faz com que muitas empresas estejam à beira do colapso por falta de matéria-prima.

A tudo isto se soma a aceleração da tendência inflacionista que já vinha de trás: o aumento dos preços da energia é de momento o mais visível, mas tudo o resto será bastante afetado. A nossa vizinha Espanha está com uma inflação de cerca de 7,6%, o valor mais alto dos últimos 35 anos.

Como é óbvio, o nosso país não está imune a essa pressão inflacionista, pelo que a curto prazo teremos um aumento de preços desse nível ou mesmo superior. E, como se isto não bastasse, a inflação conduz ao aumento das taxas de juro. No entanto e apesar das cautelas do BCE e do FED, a verdade é que elas vão subir, o que terá consequências muito negativas na liquidez de muitas famílias, pequenas, médias e grandes empresas e até com repercussões negativas em vários setores do Estado/ Governação.

A pergunta que se coloca é: o que se deve fazer e como gerir as empresas?

Cumpre realçar que se trata de lidar com um contexto para o qual, felizmente, os nossos gestores e economistas não têm grande experiência. Todavia, ficam desde já algumas sugestões.

Em primeiro lugar, há que fazer um mapeamento global e integrado das cadeias de abastecimento, pois pode haver fornecedores que, não sendo oriundos daqueles dois países, acabam por depender deles indiretamente. Segunda sugestão, identificar debilidades e eventuais pontos de rutura no sentido de se evitar falta de matérias-primas.

Depois, é necessário apostar numa cuidada gestão do risco. Ou seja, sabemos que o aumento de preços da energia e dos transportes está a ser assassino para muitas unidades económicas, sendo necessário e urgente gerir o aumento dos custos, reforçando a flexibilidade estratégica, tentando diversificar fontes de abastecimento.

Por último, há que apostar numa gestão por cenários: ninguém sabe como a guerra vai evoluir e muito menos acabar.!

O que significa que fazer previsões económicas de curtíssimo prazo, pode ser um exercício de mera futurologia.!

Em contextos com estas características, não devemos ter um plano B para o caso de as “coisas” não correrem como o previsto.

Trata-se sim, de construir diferentes cenários e ir “navegando à vista” em função da evolução dos acontecimentos, não só no contexto de guerra, mas também ao nível das decisões e não decisões das autoridades políticas e financeiras.

Nada disto é fácil e não há receitas milagrosas.! Mas uma coisa é certa: não é possível continuar a gerir as empresas ou, pelo menos, muitas delas, como vinha sendo feito até há duas semanas.

A nossa economia/os agentes económicos e o governo não podem ficar imunes aos efeitos da guerra.!

Opinião – António Morão – Prof. Universitário, economista e Gestor Empresarial