Opinião/2022 Ana Mesquita Fevereiro 9, 2022 (Comments off) (778)

Opinião – Bruno Vieira – Não vou ter netos

Hoje é dia 4 de fevereiro de 2057. Tenho 58 anos e 1 filho que me arrependo de ter, pois ele vai passar tempos mais complicados que os meus. Por essa mesma razão, ele fez a escolha de que não vai ter filhos, ou seja, não vou ter netos. Uma escolha não feita pela ganância, mas sim pela razão. Que qualidade de vida teriam os meus netos?

Mais uma vez estamos em fevereiro e em período de seca e ainda me lembro de 2022, quando se sucederam as primeiras secas, que até foram noticiadas nos meios de comunicação e captou a atenção de parte da população. Mas, para que serviu essa atenção? Nada foi feito, nada mudou. Agora as secas são rotina: lembro-me de que havia uma estância de Ski na Serra da Estrela que agora é uma atração turística para relembrar outros tempos. Em 2021 passava na televisão o número de mortes por Covid-19, agora passam as mortes das vagas de calor.

A sul do Tejo a paisagem é assustadora, devido a todos os grandes incêndios causados pela falta de água e seca. Quase não existem árvores, a agricultura é impossível e é considerado “louco” quem continuou a expandir a área de monocultura de regadio quando já se sabia que iria haver dificuldades. De momento ninguém quer se dedicar á pecuária, os custos com água são demasiado elevados para não falar que toda a alimentação animal tem de ser comprada, a erva não cresce. Praticamente todos os produtos alimentares no supermercado são importados. A malária, a febre de Dengue e a doença de Lyme são realidades em Portugal.

No outro dia por curiosidade fui ver o meu livro de geografia do 9º ano, estava lá um mapa de Portugal, aproveitei para comparar a zona costeira: as ilhas na zona algarvia praticamente são memórias e, devido ao clima extremo e á falta de areal, já nem existe turismo balnear no Algarve. O mar, até á zona de Santarém, ocupou uns bons metros das antigas margens do rio Tejo. Agora é complicado de saber onde o Tejo acaba e o mar começa visto que até á Chamusca a água é salgada. O Baleal voltou a ser uma ilha e Peniche para lá caminha. São Martinho do Porto, Nazaré, Foz do Arelho, Costa da Caparica, tudo zonas onde esse mesmo mapa assinala amarelo a simbolizar os areais que agora não existem. No Distrito de Coimbra, o mar engoliu o Mondego, a Figueira da Foz está irreconhecível. Também está aqui indicada ria de Aveiro, agora inexistente.

As minhas memórias mais felizes eram de quando ia para o Gerês e nadava naquelas cascatas de água fresca e rodeado de mato. Hoje é algo impensável já que a água que lá resta é racionada ao máximo e no mato, as árvores que vão sobrevivendo, são um símbolo de esperança. Portugal que chegou a ser conhecido como um dos países com maior biodiversidade na União Europeia, hoje é conhecido pela sua grande diminuição.

Com a falta de água viramo-nos para a dessalinização da água do mar, mas já não se sabe o que fazer a tanta salmoura, que tem danificado cada vez mais os ecossistemas costeiros que ainda sobram.

A economia está de rastos, esta pela qual se lutou até á última em prol do lucro e de que este fosse cada vez maior, mas para que serviu isso? Porque é que quando tínhamos tempo não se fez nada? Porque é que os líderes mundiais não fizeram um acordo sério para evitar esta catástrofe? Como na altura a Greta Thunberg disse, foi só “Blah, blah, blah”.

Apesar das dificuldades de hoje, nada mudou, tudo é um negócio, algo que pode melhorar a qualidade de vida das pessoas só é feito se alguém conseguir lucrar e, por exemplo, ainda hoje há quem continue a fazer da educação e da saúde um negócio, para não falar da habitação.

Agora digam me, neste mundo, no ano de 2057, com as dificuldades em que se vive, a razão diz-nos para não ter netos, pois que qualidade de vida teriam?

Espero que no futuro, o Homem deixe de pôr a sua Humanidade de lado para lucrar dos Direitos Humanos e das suas necessidades.

Opinião – Bruno Vieira