Opinião: Como estamos de Covid-19?

Estamos mal, muito mal. Os números de novas infeções dispararam e os números de irresponsáveis também, os especialistas em Saúde Pública são virtualmente atropelados pelos pseudo-especialistas na disseminação de teorias da conspiração que combatem as estratégias de controlo da pandemia e as pessoas estão cansadas. O cansaço leva a que (quase) todos se sintam cheios de direitos e sem nenhuns deveres, conduz ao desafio às regras e leva aos maus exemplos. E se o cansaço do lado da população leva à irresponsabilidade coletiva, o cansaço do pessoal de saúde leva ao desespero e à desorientação perante realidades que mudam e que são incontroláveis.

É verdade que há uma preocupante contabilidade diária que, mais que não seja, deverá servir para fazer soar algumas campainhas. Mas mais importante é o que não se contabiliza: as regras quebradas, o desleixo com a higiene das mãos, as máscaras velhas de dias e dias abaixo do nariz, os supermercados que não controlam entradas na ganância do negócio, as conversas despreocupadas à porta do café, ou noutro lugar qualquer, as escolas que não têm condições para cumprir regras, os transportes públicos à pinha, as festas em que não se pode deixar de aparecer… E os exemplos poderiam multiplicar-se, como se não estivéssemos numa situação muitíssimo mais grave do que aquela que vivemos no início da pandemia e que, na altura, levou ao confinamento geral do país.

Se naquele momento soubemos cumprir, com consciência de que a pancada económica seria enorme, por que razão não sabemos cumprir agora os “mínimos olímpicos” para evitar um novo confinamento? Por que motivo acharão as pessoas que a Covid-19 “não aquece nem arrefece”, é só mais uma doença?…

Seria bom recordar que é uma doença que continua a matar: provoca sintomas dolorosos, deixa sequelas ainda pouco conhecidas, não tem tratamento nem vacina e atinge todos.

É verdade que há quem passe por esta doença de forma assintomática, e que essa informação leve a que muitas pessoas que se sentem saudáveis não se preocupem. Mas saberão os aparentemente assintomáticos com que eventuais sequelas terão de se debater no futuro?

Eu posso partilhar informação sobre algumas sequelas: enxaquecas, perda do olfato e do paladar por muito tempo, mesmo muito tempo, zumbidos nos ouvidos que vão ficar para o resto da vida, insónias intensas, vertigens, desequilíbrio a andar, cansaço extremo, fibromialgia e as correspondentes dores musculares, artrite e as correspondentes dores articulares, tendinites e contraturas altamente condicionantes, perda de massa muscular, dificuldade de concentração, lapsos de memória. São só algumas das sequelas. Durante a doença, os sintomas podem ser tremendos: dias e dias de febre intensa, dores excruciantes em todo o corpo, vómitos, perda de consciência, diarreia, tonturas, perda de olfato e paladar, enxaquecas, perda de mobilidade, tosse dolorosa, dores de garganta, mucosas feridas, confusão, perda de apetite… Mas recupera-se. Quando finalmente se começa a melhorar, sentem-se melhoras por dois dias, por exemplo, mas ao terceiro sente-se uma queda a pique, da qual se demora a recuperar outra vez. E pode ser assim, por semanas.

Como é que eu sei disto tudo?

Porque passei por lá, entre março, abril e maio. Agora só restam as tais sequelas, muitas delas já ultrapassadas graças ao apoio de um extraordinário médico e a uma vontade férrea de ultrapassar isto, que me levou à fisioterapia, a vários hospitais e clínicas para exames sem fim, e caros, que determinaram tratamentos.

E sabem que mais? Não quero passar por isto outra vez, porque nem sequer sei se fiquei imune. Por isso, ponham as máscaras se tiverem de casa. Se puderem não sair, não saiam. E desinfetem muito as mãos. Obrigada. Por mim e por todos os que eu não quero que passem por isto.

Opinião: La Salette Marques

La Salette Marques, Consultora de Comunicação.
Autarca na Assembleia Municipal do Cartaxo.

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