Destaque Opinião/2022 Joaquim Palmela Junho 3, 2022 (Comments off) (215)

Opinião – “Então e nós?”

Então e nós, seres dotados de uma hipersensibilidade, cujo pico de febre nos obriga a recorrer aos cuidados intensivos da mãe, da avó, da companheira? Então e nós, cuja dor de cabeça é equivalente ao parto de uma criança? Então e nós, cuja constipação mais inócua nos tira toda a força e desequilibra os dois pratos da balança?

Então e nós, homens e machões, não temos direito a uns três dias por mês, a conta que Deus fez? “Então e nós?” Foi esta a reação que mais ouvi e li nos últimos dias sobre a hipótese de as mulheres terem uma licença menstrual. Só uma “besta quadrada” pode reagir assim! É suposto já termos maturidade, mas a mesma submete-se, constantemente, à imbecilidade. Uma imbecilidade que resiste à evidência científica, a qual comprova que há mulheres que têm dores incapacitantes, hemorragias de grandes fluxos e que isso pode, efetivamente, impedir o exercício de qualquer atividade.

Uma sociedade justa trata de forma diferente o que assim tem de ser tratado, sem que, com isso, se coloquem em causa os princípios de igualdade. Na verdade, esses mesmos princípios já foram devidamente testados ao longo de várias gerações de mulheres que não se renderam, que se chegaram à frente, trabalharam e lutaram. Independente das dores ou do choro dos filhos, que para trás ficaram e que com beijos silenciaram. Não são dúvidas ética ou morais que minimizam este sofrimento feminino. E fica-nos mal, a nós, homens, a vitimização infundada e digna somente de ridicularização.

É claro que qualquer mudança traz consigo a possibilidade de comportamentos fraudulentos. Mas que sociedade em constante progresso seríamos nós se nos detivesse a burocracia? Desde quando é que a desonestidade se deve sobrepor à humanidade? Somos a sociedade que criamos. E uma sociedade de suspeita e desconfiança apenas desenvolve o medo, não muda nem os tempos, nem as vontades. O foco deverá estar, portanto, nos comportamentos dignos dos protagonistas: mulheres, serviços de saúde, públicos e privados, e entidades patronais. Na mudança, no respeito, na equidade. E isso, meus caros, não se garante por decreto.

Sejamos claros. As mulheres são responsáveis por dar vida. São elas que, apesar da dor e independentemente da hora ou do lugar, parem e dão vida.  Não precisam de pena, nem de piedade. Apenas da urgência da mudança de comportamentos, de mentalidades. E, nisso, não há qualquer segredo: só depende de cada um de nós.

Afinal de contas, o machismo não é nada mais do que o medo dos homens face às mulheres sem medo. E, para terminar, só me ocorre Ary dos Santos: “serei tudo o que disserem”… Machista é que não!

Opinião – Nuno Antão, autarca em Salvaterra de Magos desde 1993. Assessor de Comunicação «Communicāre é dividir alguma coisa com alguém».