Opinião: Gonçalo Ferreira Gaspar – Em política o que parece é.

Publicado em 13 Jul 2020
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Em política o que parece é.

A semana fica marcada por uma daquelas “surpresas” que vêm nos livros de “ciência política”, em vésperas de ano de eleições autárquicas.

Ficámos a saber, por comunicado do secretariado do Partido Socialista do Cartaxo, a retirada dos pelouros à vereadora Elvira Tristão. 

Não, não estou a fazer confusão.

Um órgão político, comunicou a retirada de pelouros de uma vereadora de um órgão autárquico. Tudo isto até podia ter uma réstia de normalidade discutível, se ambos os órgãos fossem liderados pela mesma pessoa, o que não são.

Nada disto é normal, mas também nada disto é estranho.

A competência para a distribuição e para a retirada de pelouros aos vereadores é da exclusiva gestão e competência de Pedro Ribeiro, Presidente da Câmara Municipal do Cartaxo. Mas pelos vistos essa competência legal passou a ser exercida pelo secretariado do Partido Socialista do Cartaxo.

Ultrapassando as questões legais, passemos para as questões políticas. 

Vejamos, Pedro Ribeiro referiu e passo a citar “a acumulação de diferenças inconciliáveis na forma como são conduzidos alguns dossiês e, acima de tudo, no sentido de lealdade política que deve presidir a uma equipa de trabalho que todos os dias tem que tomar decisões difíceis e complexas, causaram um efeito de erosão nas relações de trabalho”, fim de citação. 

Numa primeira leitura parece uma resposta que soa a música, numa segunda leitura atenta e no sentido de perceber efetivamente o que esteve na origem da retirada de pelouros à vereadora Elvira Tristão, não soa a nada. 

Não se vislumbra na justificação de Pedro Ribeiro qualquer razão objetiva para uma tomada de uma decisão tão definitiva. 

No mesmo registo Elvira Tristão, acabada de ser literalmente despedida refere, passo a citar “continuo a exercer o meu mandato de vereadora pelo PS e o vice-presidente Fernando Amorim poderá contar com todo o meu apoio no trabalho dos pelouros que até aqui exerci”, fim de citação. 

Um misto de partidarismo cego e uma submissão peculiar só podem justificar a falta de uma razão necessária e exigível para esta decisão política.

Aqueles que exercem cargos públicos não podem resumir a sua disponibilidade e dever de informação apenas às questões domésticas e triviais do exercício autárquico, mas também às questões cuja dimensão política o exige. A retirada de pelouros a um vereador não é uma questão menor. Os partidos com assento na Câmara Municipal, na Assembleia Municipal, mas principalmente os eleitores, têm o direito à justificação cabal e objetiva sobre as razões que levaram a esta retirada de pelouros à vereadora Elvira Tristão. 

Mas não, a arrogância política da maioria absoluta sobrepõem-se ao dever de informação. 

Caminhando a passos largos para mais um mandato onde o derrotado continua a ser o concelho do Cartaxo, esta decisão dá o pontapé de saída para as “primárias” no Partido Socialista do Cartaxo, onde a escolha para o número dois e a escolha da mulher na lista encabeçada por Pedro Ribeiro vai estar ao rubro.

Em política o que parece é.

O alerta está enviado.

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