Opinião/2022 Ana Mesquita Fevereiro 8, 2022 (Comments off) (248)

Opinião – La Salette Marques – Bordados e outras andanças…

Rendas e bordados costumam ser assunto de mulheres, e é preciso não serem muito modernas para saberem o que é um ponto grilhão, ou uma bainha aberta… Mas a verdade é que foi por um homem jovem que soube da notícia de que a Direção Geral do Património Cultural (DGPC) inscreveu os Bordados da Glória do Ribatejo no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

A candidatura foi apresentada pela Câmara Municipal de Salvaterra de Magos, apoiada pela Universidade de Évora, pela União de Freguesias de Glória do Ribatejo e Granho e por outras instituições e associações locais, além da própria população. Trata-se, portanto, de preservar coletivamente e com força académica, tradições e traços culturais das nossas gentes e das nossas terras, saberes que foram passando pelas mãos de gerações até quase se perderem.

E se há tradições que têm corrido risco de extinção, são precisamente as que saíam de mãos cansadas e calejadas, que, à luz do candeeiro ou da vela, encontravam conforto na cambraia leve em que se bordavam as roupinhas de um bébé que estava para nascer, ou no pano fino em que se faziam os lençóis dos noivos. Era coisa de fim de jornada para as mulheres habilidosas, quando se esgotavam todos os muitos afazeres da casa.

Ora, os bordados da Glória do Ribatejo são feitos em vulgar ponto cruz, mas os seus “lenços dos namorados”, bolsas e camisas ostentam padrões e cores únicas, como únicas são as mãos que os criam. E são cada vez menos mãos, porque hoje são poucas as casas onde ainda há uma mulher bordadeira. Tanto na Glória do Ribatejo, como no resto do país.

Fruto do desenvolvimento económico, cultural e civilizacional, as mulheres são hoje menos dedicadas aos lavores, ocupando o seu tempo com novas tarefas e novos desafios intelectuais. Mas, ao contrário do que possa pensar-se, continuam a ser apreciadas as peças bordadas artesanalmente, autênticas obras de arte que saem das mãos de quem ainda tem tempo, gosto e paciência, preservando dessa forma a tradição.

Felizmente, há hoje o reconhecimento de que estas manifestações culturais únicas são peças fundamentais para reconstituir o imenso puzzle que é a nossa cultura, tão rica quanto diversificada. Tenho esperança de que, a exemplo dos Bordados da Glória do Ribatejo, também a Cultura Avieira veja reconhecida a sua importância.

A Cultura Avieira deixou marcas extraordinárias na nossa região. Marcas essas que, estou certa, constituem uma fonte de riqueza adiada até ao dia em que se decidir investir na recuperação das aldeias avieiras e do património imaterial que Soeiro Pereira Gomes e Alves Redol tão bem souberam retratar nos seus livros. A Rota Avieira, praticamente por explorar, tem todo o potencial para constituir um produto turístico de excelência, além de contribuir para manter viva a memória de tantos e tantas de nós, familiares de gente da beira Tejo.

Mas não é só da Cultura Avieira que estamos sem notícias. É também do Fandango, de cuja candidatura a Património Imaterial da Humanidade a autarquia do Cartaxo se constituiu como entidade organizadora. A nossa cultura merece um passo em frente e nestes dois exemplos, podem dar-se passos que não atrapalham em nada o resto da nossa vida cultural.

Opinião – La Salette Marques