Opinião: La Salette Marques – Chega – PSD

Publicado em 04 Ago 2020
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A política portuguesa viveu um episódio complicado nos últimos dias, episódio esse que carece de clarificação, sob pena de virmos muito em breve a assistir à morte de um dos partidos fundadores da nossa democracia, o PSD.

O líder do PSD, Rui Rio, tem vindo a assumir uma postura de Estado, mostrando que o seu partido quer ser parte da solução para Portugal, muito especialmente no momento de pandemia que o Mundo está a atravessar. Rui Rio tem explicitamente recusado a demagogia, mesmo quando fala apenas para dentro do seu partido, como tantas vezes tem acontecido. Alcançou um estatuto que lhe valeu elogios internacionais.

Foi por isso que se ouviram com enorme espanto as suas palavras de disponibilidade do PSD para se aliar ao Chega: “se o Chega evoluir, apesar de estar muito à direita, para uma posição mais moderada, eu penso que as coisas se podem entender”. É verdade que o PSD foi a incubadora política de André Ventura. O líder do Chega é a criatura e o PSD o seu criador. Mas esta não é forma de o criador lidar com a criatura, que degenerou, indo para a extrema direita do espectro político!

O Chega representa em Portugal as políticas extremistas, xenófobas e racistas que proliferam pela Europa e pelo resto do Mundo, assentes numa cultura de falsos nacionalismos, de ignorância e de superficialidade no debate, fazendo uso da manipulação da realidade e da informação, desinformando e assustando. André Ventura personifica tudo isto, ora vitimizando-se, ora apresentando-se como o messias. Mas que projeto tem para o país? O que conhece do país? O que fez pelo país?

Talvez André Ventura conheça bem certas realidades, já que tão bem incorpora no seu discurso as reivindicações populares de mesa de café. E também sabe falar de futebol! E sabe usar a oratória, a retórica e gesticula como se estivesse na barra do tribunal. Portanto, não tem dificuldades na articulação das palavras, nem nas articulações dos ombros ou dos braços, mas é portador de ideias desarticuladas, incompatíveis com o Estado de Direito, com a Constituição e com a Democracia. É esta a força política com que Rui Rio está disponível para se entender, desde que evolua “para uma posição mais moderada”.

Mas de que espécie de moderação fala o líder social democrata? É que nós já temos um partido da direita moderada, o CDS, aliado tradicional do PSD, que Rui Rio poderia ter considerado na resposta à pergunta que o jornalista lhe colocou, sobre uma eventual parceria com o Chega. Em vez disso, o presidente do PSD preferiu colocar ao Chega condições inaceitáveis, como deixar a demagogia e o populismo, que são precisamente as ferramentas que esta força política usa para atrair o seu eleitorado.

Para termos uma ideia de como esta disponibilidade do PSD para um eventual entendimento com o Chega pode ter um resultado catastrófico para os social democratas, e certamente muito mau para Portugal, a resposta de André Ventura foi elucidativa: “ou o PSD muda ou o Chega, que já é a terceira força política nas sondagens, será a segunda e acabará com o PSD”.

Esta é a relação que existe neste momento entre o criador e a criatura, que degenerou e que está disposta a canibalizar o eleitorado laranja à custa sabe-se lá de que argumentação ou de que projeto. Rui Rio, depois da resposta que deu, tem agora que dar muitas outras respostas e clarificar muito bem o espaço político que pretende ocupar. Como está bem de ver, os portugueses que habitam a área da social democracia não vão querer envolver-se com um partido que está disposto a ser uma ponte para o Chega. 

Opinião: La Salette Marques, Consultora de Comunicação.
Autarca na Assembleia Municipal do Cartaxo.

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