Opinião/2022 Joaquim Palmela Fevereiro 3, 2022 (Comments off) (328)

Opinião – La Salette Marques – Não Passarão!

“O povo votou e o PS ganhou!” Este era o slogan que estava na boca dos apoiantes socialistas no final do dia das eleições que deram a maioria absoluta a António Costa.

É verdade que o PS ganhou, mas foi sobretudo a Democracia que teve uma vitória que ninguém antecipava: a abstenção, que tem vindo em crescendo, e se esperava aumentar por causa da pandemia, baixou. Pela primeira vez em tantos anos, a abstenção baixou.

Embora fosse previsível uma perda de eleitorado pelos partidos à esquerda do Partido Socialista, os resultados eleitorais, temos de o reconhecer, foram surpreendentes a todos os níveis. Não só pela maioria absoluta do PS, não só pelos maus resultados de alguns partidos, mas, essencialmente, pelos grandes resultados obtidos por outros. E é essa operação de transvase eleitoral que importa agora analisar, para que se consiga perceber o fenómeno de crescimento da extrema-direita em Portugal.

O Concelho do Cartaxo contribuiu para os totais nacionais com resultados em linha: vitória do PS, o PSD em segundo com metade dos votos do primeiro, o BE, a CDU e o CDS caíram a pique, o IL e o Chega subiram por aí acima.

Como nos devemos recordar, em 2015 não existiam nem o Chega nem o Iniciativa Liberal, que apenas disputaram eleições, pela primeira vez, em 2019. Os resultados de 2019 são, portanto, o nosso termo de comparação para tentarmos perceber o comportamento do eleitorado do concelho do Cartaxo do ponto de vista político.

Relativamente a 2019, o eleitorado do concelho cresceu em 171 eleitores, o que significa que aumentou a população, dado que contraria certas narrativas relativamente a outras andanças eleitorais. Passámos de 20 478 para 20 649. No domingo, foram às urnas 11 861 eleitores e em 2019 foram votar 11 010, o que significa que tivemos mais 851 votantes. Baixámos a abstenção, o que, como já constatámos, é uma excelente notícia!

Em 2019, votos brancos e nulos somavam mais de 500 boletins. Em 2022 desceram para menos de metade. Significa isto que cerca de 300 eleitores decidiram escolher uma força política para votar.

Entre perdas e ganhos, verificámos que os eleitores do Bloco de Esquerda e da CDU decidiram penalizar os seus partidos em mais de 950 votos. Já os do CDS e do PAN perderam quase 400. Se a estes votos juntarmos os mais de 400 que em 2019 foram distribuídos por uma miríade de pequeníssimos partidos de protesto que agora não se apresentaram ao eleitorado, temos aqui mais de 2 000 votos a mudarem de campo e a fazerem a diferença, somados aos novos 850 eleitores que contrariaram a abstenção.

O PS arrecadou mais de 900, o PSD mais de 550, o Iniciativa Liberal quase 400 e o Chega quase mil, passando de 276 para 1273 votos.

Esta aborrecida crónica, crivada de números e de contas “por alto”, tem apenas um objetivo: demonstrar que os votos de protesto que se aconchegavam em forças políticas como o PCTP/MRPP, o PDR, o PPM ou o PURP (só para dar apenas alguns exemplos), saltaram agora para os braços do Chega, que cativa também o eleitorado que gosta de desabafar à mesa do café.

Mas, se antes o voto de protesto estava pulverizado e não havia problema, agora está concentrado e há problema: elege deputados de uma força política extremista, com ligações perigosas, racista e xenófobo, machista e de competência duvidosa. Protestar é um direito democrático. Mas convém protestar usando argumentos e não votos que engordam forças anti-democráticas, sob pena de se perder até o direito ao protesto! É preciso não deixar passar!

Opinião – La Salette Marques