Opinião: La Salette Marques – Teletrabalho : porque sim e porque não

(Publicado em: 7 Julho, 2020)

O conceito não é novo, embora para os portugueses seja uma novidade que se concretizou com a pandemia. E veio para ficar, naquele que é chamado o “novo normal”.

O teletrabalho não se concretizou antes devido à resistência patronal, ciosa de mecanismos de controlo do cumprimento de horários e de tarefas pelos trabalhadores. E entre os trabalhadores, muitos ansiavam por esta forma de trabalho, tendo em conta, por exemplo. a poupança que proporciona.

Não deixa de ser irónico que, agora que a experiência aconteceu, sejam as entidades patronais a querer impor o teletrabalho e os trabalhadores a resistirem à ideia de fazer das suas casas particulares sucursais da empresa para a qual trabalham.

Durante a pandemia tem vindo a constatar-se que afinal não há perda de produtividade e há muitos ganhos operacionais: as empresas poupam nos custos associados ao funcionamento das instalações. Isto é poupam em alugueres, contas de eletricidade, água e até telecomunicações. Poupam no desgaste dos equipamentos e têm os funcionários muito mais disponíveis, tendo em conta que o teletrabalho não está regulamentado e, portanto, os horários deixam de ser cumpridos.

Já os trabalhadores preferiram ficar em teletrabalho a ficar em lay-off ou mesmo desempregados. Para muitos, esta é também uma forma de poupança em deslocações, por exemplo. Mas, não estando regulamentado, que dimensão pode adquirir o teletrabalho?

Pode transformar-se facilmente numa forma de aprisionamento domiciliário, de muitas horas diárias em frente a um ecran, sem pausas adequadas para refeições. Pode tornar ainda mais sedentária uma vida profissional que já hoje traz consequências pouco recomendáveis para saúde de tantos trabalhadores. Para as mulheres, pode ser o retrocesso do regresso a casa, para cuidar do trabalho, da casa e da família, tudo ao mesmo tempo.

Não temos dúvidas de que o teletrabalho será uma realidade daqui por diante, mas é preciso acautelar direitos e obrigações de todas as partes para que o trabalho em modo remoto não se transforme numa nova forma de escravatura, em que o trabalhador abdica da sua vida pessoal, do seu tempo de lazer e até dos seus equipamentos, para uma entidade patronal que lhe paga o mínimo e o mantem em situação de precariedade permanente.

É pois urgente a regulamentação desta forma de exercer a atividade laboral, que deveria ser exercida em regime misto: trabalho presencial intercalado com dias de teletrabalho, poupando o trabalhador ao desgaste do confinamento intensivo forçado. Estar fechado, ou fechada, em casa não é propriamente a forma mais saudável de trabalhar, embora, em contexto de pandemia, seja a mais segura.
— 

La Salette Marques, Consultora de Comunicação.
Autarca na Assembleia Municipal do Cartaxo.