OPINIÃO: MÁRIO REIS – A MEMÓRIA

Publicado em 20 Ago 2020
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Nas duas décadas em que venho acompanhando mais proximamente a atividade autárquica, constato que a preservação da memória do Concelho tem sido utilizada por todas as forças políticas como promessa eleitoral, sob a forma de um «Arquivo Municipal».

Parece que este é um assunto de grande peso para convencer o eleitorado.

Começou com a Coligação Democrática Unitária, ideia nascida do historiador Dr. Rogério Coito com o patrocínio do candidato Eng. Carlos Santos… «Compreende-se!»

Depois, popularizou-se, a ideia, porque no concreto, nada!

Avanços e recuos, sempre foi a «ovelha ranhosa» das promessas eleitorais, malgrado até ter tido obras prometidas…

Mas nestas andanças, eu gosto muito do trabalho arejado dos mais novos e, por isso, fui ler a Dissertação de Mestrado em Política Cultural Autárquica de Ricardo Moreira, de 2014:

«Na perspetiva de uma autarquia, o arquivo é compreendido como a unidade de serviço administrativo especializado cuja missão consiste em receber, organizar, guardar, tratar e preservar a documentação relativa à memória do município. Deve também promover a gestão integrada dos documentos produzidos pela autarquia, desenvolvendo produtos e serviços de informação com o objetivo de satisfazer todas as necessidades das diversas partes interessadas.»

Pronto, não precisava de mais nada.

E à minha memória veio a exposição «200 anos de Teatro», onde a Área de Serviço reuniu, pela mão do seu presidente, Frederico Corado, as paredes do Centro Cultural cheias de informação sobre o que foi esta arte no nosso concelho… depois: caixotes! (literalmente)

Pensei no trabalho do Telmo Monteiro e do Rui: o projeto «Memórias Fotográficas» do Cartaxo… agora, onde está? E do «Arquivo de Imagem do Cartaxo» que chegou a ser concretizado ao nível da organização, mas que se ficou pelas reuniões…

E lembrei-me ainda das minhas muitas caixas cheias de trinta anos de recortes de jornais sobre o Concelho: nos primeiros cinco ou seis anos, ainda fui arquivando… agora, vou amontoando! Algum dia, «lá para o ano três mil e tal».

Mas, voltemos ao Mestre Ricardo (desculpe lá o abuso de confiança): «Na sociedade atual, deverá esquecer-se a ideia do arquivo como simples depósito ou coleção de documentos. Uma mudança de paradigma é fundamental, e a evolução conhecida nos últimos tempos remete-nos para uma visão do arquivo municipal como um serviço altamente especializado, procurando implementar as melhores práticas de gestão integrada da documentação e informação, orientadas para o cidadão, num esforço de melhoria contínua, com vista à satisfação e mesmo superação das suas expetativas de qualidade, com objetivos de eficácia e eficiência.»

Quando me caíram-me os olhos na última citação deste capítulo:

«Note-se que o arquivo espelha a instituição no seu funcionamento, na sua estrutura organizativa e nas atividades que desenvolve.»

Ah! Eu sabia que a ausência de esforço para concretizar o Arquivo Municipal, tinha qualquer coisa a ver com a realidade…

E , ale uma aposta? Nos programas eleitorais que os partidos farão sair lá mais para o ano, lá voltaremos à promessa do Arquivo Municipal.

Mas, vêm mesmo a propósito os versos de António Gedeão, no Poema do Alegre Desespero:

«Compreende-se que lá para o ano três mil e tal

ninguém se lembre de certo Fernão barbudo

que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores

que tirou um retrato toda vestida de veludo

sentada num canapé junto de um vaso de flores.

Compreende-se.

(…)

Compreende-se

Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?»

Bem hajam e fiquem com SAÚDE!

Opinião

Mário Reis: Professor do 1º ciclo no Agrupamento D. Sancho I, Pontével

Membro da Assembleia Municipal do Cartaxo

Dirigente associativo dedicado ao teatro

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