Opinião: Mário Reis – Como estamos de Vinhos?

Publicado em 23 Jul 2020
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O setor vitivinícola, não é propriamente a área onde estou mais à vontade, por duas razões: não gosto de bebidas alcoólicas (como não gosto de sushi, nem de couve flor) e, para além do que vou lendo na comunicação social e do que oiço aqui e acolá, nunca fiz nenhuma aproximação significativa a esta realidade.

Escrevo este texto sobre este tema porque saí muito apreensivo de uma “Audição Pública” promovida pelo Partido Comunista Português na passada semana, exatamente sobre o tema «O impacto da pandemia nos pequenos produtores de vinho», contando com a presença de alguns curiosos, de pequenos produtores locais e do deputado à Assembleia da República, Dr. António Filipe.

Comecemos pela realidade nacional: a produção do vinho ocupa o 11º lugar, sendo Portugal o 5º exportador mundial de vinho. Apetecia pôr aqui um “emoji” daqueles admirados!

Não fazia ideia! No país 2,53% do território está ocupado por vinhas (234 mil hectares) e o setor envolve um número superior a dez mil trabalhadores, apenas na transformação e comercialização do vinho, não incluindo os postos de trabalhos indiretos a montante da indústria, como por exemplo, a produção de rolhas, garrafas, rótulos, produtos enológicos, equipamentos, maquinaria e outros.

Só para os números, segundo a ViniPortugal, em 2012, o setor realizou 1282 milhões de euros de negócios, permitindo um valor acrescentado (digamos “lucro”) de 309 milhões de euros… e para acabar a leitura das estatísticas, segundo números publicados pelo Instituto da Vinha e do Vinho, produziram-se em 2019, 5 893 513 hectolitros de vinho, em Portugal!

Tudo isto apenas possível com um investimento muito grande na investigação, na tecnologia e na divulgação, fazendo deste, um dos setores económicos mais ativos no nosso país.

No Cartaxo, a Adega Cooperativa, encima o grupo dos grandes dos produtores, secundada, pelo Casal do Conde, Fernando Rodrigues Carvalho, Golden Grape, Joaquim Lambéria, Malaca, Pitada Verde, Quinta do Falcão, Rui Franco e Terreiro, a que se seguem os pequenos produtores, do tipo familiar, com adega própria, que vendem a granel, sobretudo em “boxes”, promotores, regra geral, de maiores ou menores convívios gastronómicos durante a venda.

Ainda existem os produtores de fim-de-semana que quase só fazem contas ao convívio e ao prazer da bebida, porém, apesar de se tratar de um negócio de elevado retorno, em situações normais, os investimentos que exige são muito grandes: basta pensarmos que a maturidade de uma vinha nova é atingida aos cinco anos. No preço dos produtos, na mão-de-obra, na tecnologia.

«Oliveira, a do meu avô, figueira, a do meu pai e vinha, a que eu puser». Diz a sabedoria popular.

A pandemia covid-19 acabou com as exportações (30% da produção); as vendas  para os clientes habituais, a restauração, baixaram drasticamente e apenas os grandes produtores “se aguentam” a colocar os vinhos nas grandes superfícies aos preços e nas condições destas…

Os pequenos produtores “safaram-se” com as vendas on-line e as vendas diretas aos consumidores, reduzindo a sua faturação para 20%.

Entretanto o Governo avança com 10 milhões de euros para a queima, a 40 cêntimos o litro e apenas 5 milhões para o armazenamento, com empréstimos a juros muito elevados e em condições a que apenas podem chegar os grandes produtores.

Com os toneis, pipas e armazéns cheios. Com uma vindima à porta… que soluções?

Dada a complexidade da situação, ficamos com tema para a próxima semana.

Bem hajam e fiquem com SAÚDE!

Mário Reis: Professor do 1º ciclo no Agrupamento D. Sancho I, Pontével

Membro da Assembleia Municipal do Cartaxo

Dirigente associativo dedicado ao teatro

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