Opinião Mário Reis – O Planeta não nos merece (?)

Publicado em 27 Ago 2020
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Andei por aí, escolhi o centro montanhoso do país para “lavar a cabeça” e pôr umas quantas contas em ordem: umas caminhadas junto de rios, umas terras antigas, uns costumes ancestrais e, o melhor, uns Amigos.

Por toda a parte cicatrizes negras deixadas pelos fogos de há anos, e deste ano…

Onde antes os pinhais não nos deixavam ver a paisagem, surgem agora vistas a perder até ao horizonte das altas serranias.

Mimosas e eucaliptos ocupam agora muitos espaços onde arderam outras árvores mais ou menos autóctones.

E o ciclo da história põe-se a jeito para se repetir: umas quantas replantações de pinheiros, muitos eucaliptais novos…

Que raio: que o monarca chamado Afonso III e o seu sucessor, Dinis, que algum historiador resolveu cognominar de «Lavrador» não percebessem nada de ecologia, eu até desculpo: os homens viveram há 700 anos… A sua responsabilidade sobre o início da monocultura do pinheiro no nosso país, desculpa-se por muitos motivos, até pela natureza dos solos, mas no século 21 já não há desculpas para se cair nos erros que o tempo nos ensinou serem desastrosos, sobretudo se nos lembrarmos do que aconteceu em outubro de 2017…

Bem, alegadamente a «Máfia do Pinhal» terá tido muito a ver com este tenebroso acontecimento, porém o ordenamento e a continuidade da espécie foi o rastilho para que ardessem nove mil e quinhentos hectares (86%) do Pinhal de Leiria!

Todos ouvimos falar nas causas naturais, nos descuidos, nos acidentes e na má intenção que “responsabilizam” a origem dos fogos, a que se acrescenta sempre o ordenamento do território, o tipo de plantas, etc. etc.

Mas nunca mais aprendemos!

Bastava consultarmos «A árvore em Portugal», do arquiteto paisagista e ecologista Gonçalo Ribeiro Telles (por diversas vezes ministro), os seus muitos artigos e a legislação que deixou para percebermos que:

«A limpeza da floresta é um mito. O que se limpa na floresta, a matéria orgânica? E o que se faz à matéria orgânica, deita-se fora, queima-se?

Dantes era com essa matéria que se ia mantendo a agricultura em boas condições e melhorando a qualidade dos solos. E, ao mesmo tempo, era mantida a quantidade suficiente na mata para que houvesse uma maior capacidade de retenção da água.

Com a limpeza exaustiva transformámos a mata num espelho e a água corre mais velozmente e menos se retém na mata, portanto mais seco fica o ambiente.

A limpeza tem que ser entendida como uma operação agrícola.

Mas esta floresta monocultural de resinosas e eucaliptos, limpa ou não limpa, não serve para mais nada senão para arder. Aquela floresta vive para não ter gente.»

Acho que há muito que sabemos tudo, bastará que se ponha em prática… nem que seja a fugir do Reinaldo (lembram-se os mais velhos?) quando arrancávamos os eucaliptos que nos retiraram o Ripilau…

E a este propósito, lembro-me de um provérbio atribuído ao povo Aborígene:

«Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar.

Estamos só de passagem.

O nosso objetivo é observar, crescer e amar…

E depois, vamos para casa!»

Bem hajam e fiquem com SAÚDE!

Opinão: Mário Reis – Professor do 1º ciclo no Agrupamento D. Sancho I, Pontével

Membro da Assembleia Municipal do Cartaxo

Dirigente associativo dedicado ao teatro

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