Opinião/2022 Joaquim Palmela Fevereiro 23, 2022 (Comments off) (584)

Opinião – Nelson Silva Lopes – O custo das notícias e as laranjas

Sou um viciado em informação. Leio dezenas de jornais, escuto rádios e vejo todos os canais informativos. Dever de ofício e paixão. Uma pessoa informada sofre mais, mas também reforça a resiliência e a segurança de enfrentar os que se julgam mais fortes, mais poderosos, mais competentes, mais espertos, nesta sociedade onde a esperteza vale mais que um doutoramento.  

No meu olhar sobre a informação verifico que o jornalismo de proximidade, que me seduziu e que continuo a praticar para o bono, tem dado lugar à venda de conteúdos por encomenda. Não se distingue o que é informação (notícia, reportagem, entrevista, crónica) do que é propaganda. 

Há “jornalistas” com “avenças” com empresas, organizações, instituições, municípios e freguesias e outros que recebem dos chamados sacos azuis dos eleitos e dos partidos. Todos sabemos disto mas assobiamos para o lado. 

O ângulo de abordagem é escolhido, muitas vezes, em função do protagonista, do território e dos interesses existentes entre quem paga e quem produz o conteúdo “jornalístico”. Desprezando a inteligência do leitor, do ouvinte ou do espectador.  

Enquanto escrevo estas linhas (sem qualquer patrocínio ou encomenda), a memória recorda uma situação vivida há uns 15 anos.  

Fui fazer uma reportagem de uma abóbora gigante para um jornal regional. Na despedida a senhora perguntou-me: “Quanto lhe devo pelo seu trabalho?”. 

Respondi: “Nada, senhora. As notícias e reportagens não se pagam”. 

Insistiu: “Gostava de lhe dar qualquer coisinha e de pedir que anunciasse que tenho laranjas doces e cheias de sumo para vender”. 

Expliquei que não poderia anunciar a venda das laranjas mas coloquei no texto que a casa da senhora estava rodeada de um extenso pomar com laranjas sedutoras que vendia a quem a procurasse. Ilustrei o texto colocando meia dúzia de laranjas ao lado da abóbora para se perceber melhor a dimensão do fenómeno e ao mesmo tempo seduzir o leitor para as laranjas.  

Uns dias depois, um camarada da redação que vivia na freguesia do pomar aparece-me com um saco enorme cheio de laranjas que a senhora tinha mandado para mim.  

As laranjas eram uma delícia. Cheias de sumo e de frutose. A pontos que, semanas depois, ao passar na zona do pomar, parei e pedi à minha mulher para ir comprar 10 kg. Não apareci, com receio que a senhora me oferecesse as laranjas.  

Opinião – Nelson Lopes 23 fevereiro de 2022