Opinião/2022 Ana Mesquita Fevereiro 19, 2022 (Comments off) (376)

Opinião – Nuno Mário Antão – O “berbicacho”, a normalização e o mês da enguia

Contrariamente ao que Marcelo, “o comentador-constitucionalista-presidente”, tinha sentenciado, o “berbicacho” governamental não se confirmou, nem a normalidade que havia sido vaticinada aquando da dissolução da Assembleia da República. Marcelo, “o presidente-constitucionalista-comentador”, não admitia uma tomada de posse com sobressaltos: “não, não, não. Está definido”. Tal também não se confirmou e o “berbicacho” aí está.

Dificilmente teremos Orçamento do Estado para 2022 antes do início do segundo semestre e isso tem custos sociais e económicos difíceis de repor com a simples retroatividade das decisões. E é sobre esses efeitos que temos de refletir, começando pela avaliação da capacidade de assumir compromissos (o normal funcionamento das instituições depende dessa capacidade). Os tempos que aí vêm continuarão a ser altamente desafiantes: a pandemia ainda não acabou, os efeitos a longo prazo do vírus ainda são desconhecidos e ainda não há maioria absoluta que garanta respostas adequadas, na dose e no tempo, sem a estabilidade da “palavra dada, palavra honrada”.

A tal palavra honrada que não admite a “normalização” do radicalismo, do racismo e da xenofobia. Quem quer usar o sistema para o destruir e o declara solenemente, em prime-time, não pode, depois, “calimerizar-se”. Porque o sistema reage. Toda e qualquer tentativa de integrar quem não se quer integrar é um exercício que apenas conduzirá, de cedência em cedência, à destruição do sistema. Um sistema que é, recorde-se, um estado de direito democrático que procura garantir, a todas e a todos, igualdade de oportunidades, acesso a cuidados de saúde tendencialmente gratuitos, escola pública de qualidade e proteção social sempre.

Permitam-me a ousadia de “roubar” palavras. Mas Sophia definiu bem o comportamento que, em momentos como este, devemos seguir: “Vemos, ouvimos e lemos. Não podemos ignorar”. Não passarão! É muito mais que um slogan, é uma convicção, um modo de vida que honra Abril, a liberdade conquistada e a inesgotável construção de uma sociedade mais livre, igual e fraterna. Sigamos, por isso, em frente. Sem recuos. Sem hesitações. Sem cedências.

Em tom de despedida: já vos tinha falado, neste espaço, de Salvaterra de Magos e de umas quantas pequenas maravilhas que podem visitar e das quais devem desfrutar. Deixo-vos, agora, o convite para o fazerem durante o mês de março e, assim, aproveitarem as inúmeras atividades que a organização do “Mês da Enguia” nos proporciona. Em https://www.mesdaenguia.pt/ poderão consultar, muito em breve, toda a programação e a restauração aderente. Não percam. Viver o melhor do nosso país é, também, uma forma de o homenagear.

A Ponte:

A forma solidária como a Europa se prepara para responder aos efeitos da crise da seca. Já tinha ficado claro com as respostas à pandemia e, agora, confirma-se: às crises responde-se com solidariedade, não com austeridade.

O Muro:

A mera hipótese de a Europa entrar numa guerra convencional, que tudo destrói e nada constrói. É um cenário horrível, difícil de imaginar e com consequências imprevisíveis. Um muro que, certamente, não irá “apenas” separar.

Salvaterra de Magos, 19 de fevereiro de 2022

Opinião – Nuno Mário Antão