Opinião/2022 Joaquim Palmela Fevereiro 5, 2022 (Comments off) (339)

Opinião – Nuno Mário Antão – O povo é quem mais ordena.

Escrever é um ato de coragem. Dar opinião é, nos dias que correm, uma ousadia, um atrevimento. E a fronteira entre a análise dos dados e o desejo de os comentar, sem resistir aos exageros e sem hesitar nas especulações, é tão ténue que a maior parte de nós já não a distingue. E isso tem consequências confrangedoras quando, de repente, se percebe que a realidade insiste em contrariar as narrativas.

A verdade (a inquestionável verdade) é que convivemos com dezenas de horas de debates sobre os debates, de comentários sobre os comentários, de análises diversas (e contraditórias) dos muitos (demasiados) especialistas em coisa nenhuma (a não ser nesta nova – não nobre – arte do “achismo)”. Sob uma capa de aparente isenção, entram pela televisão, pela rádio, pelo podcast, pelas redes sociais adentro, cheios de certezas, capazes de diagnosticar todos os males do mundo e donos da solução mágica que tudo resolve.

Dir-me-ão: é da vida! É, mas… Quando a ficção, a mentira e a criatividade narrativa prevalecem sobre a realidade e, acima de tudo, sobre a verdade, há sempre alguém que é enganado, há sempre alguém que se revolta perante o sistema, há sempre alguém que passa a achar que se identifica com os extremos, há sempre alguém que deixa de ir votar.

30 de janeiro foi um dia histórico. Como em tantos outros dias assim, desde aquele “dia inicial inteiro e limpo”, o povo (palavra com que tantos enchem a boca e batem no peito) saiu à rua e ordenou. Mais participação, menos votos brancos, menos votos nulos. Não há derrotados quando assim o é! No entanto, perante as profecias declaradas, há quem tenha de refletir, pedir desculpa e seguir o seu caminho.

É impossível sintetizar a análise dos resultados em meia dúzia de parágrafos, é impossível transmitir-vos todos os possíveis efeitos do que aconteceu a 30 de janeiro quando ainda nem uma semana passou. Portugal mudou? Sim, mas a probabilidade de se mudar tudo para ficar tudo na mesma é grande. Cá estaremos para ver. E viver.

E eu por aqui estarei. Sempre disponível para, juntos, acompanharmos os dias e as agendas mediáticas. Sempre pronto para, juntos, pensarmos sobre isso. Para lá do óbvio, para lá do muro.

Opinião – Nuno Mário Antão