Opinião/2022 Joaquim Palmela Setembro 18, 2022 (Comments off) (257)

Opinião – O cancro da saúde tem cura 

Temos médicos, dinheiro para gastar e a oportunidade de recuperar o SNS valorizando os seus profissionais e eliminando as barreiras ideológicas contra o privado.  

Em setembro de 2022, há doentes com mais de 80 anos à porta dos centros de saúde da região a partir das 05h00 da madrugada. Velhos e debilitados pela doença, apenas querem uma consulta com um médico que os ajude a minorar o sofrimento das mazelas, renove uma prescrição ou lhes dê um conselho. 

Há três anos ouvi o Presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, estimado dr. Luís Pisco garantir que a normalidade seria reposta até 2021. “…no espaço de dois anos, deixará de ser um problema e sairá das notícias”, afirmou-o numa visita à região. 

A falta de médicos nos centros de saúde não resulta do desencanto pela profissão nem da ausência de médicos formados e aptos a exercer. Basta ver a oferta em quantidade e qualidade na saúde privada. 

O verdadeiro cancro do SNS está na sua organização.  

Numa clara ausência de estratégia que privilegie o interesse público. 

Nesta cegueira ideológica com pavor ao privado mesmo que faça melhor e mais barato. 

Neste clientelismo e nepotismo que alimenta um sistema viciado e dependente da desorganização do Estado.  

Vejam quantos encartados dos partidos de poder, que nada tem a ver com o setor da saúde, estão instalados nas administrações, direções, assessorias, consultorias e estudos.   

Portugal tem 5,3 médicos por mil habitantes. Poderia e deveria ter mais clínicos, mas não somos um país rico e infelizmente a reforma da saúde nunca foi prioridade, como da Educação, da Justiça ou da Segurança. 

Analiso os dados do Banco Mundial e vejo que temos mais médicos por mil habitantes que a Áustria, a Finlândia, a Suíça, a Suécia, a Alemanha e a Dinamarca, entre outros países com elevados níveis de cidadania, rigor e competência. 

Curiosamente nós gastamos mais que estes países na Saúde. Portugal gasta 10,1% do Produto Interno Bruto (PIB) na saúde quando a média na EU é de 8,8%. 

Como se prova, não temos falta de médicos nem de dinheiro para investir no SNS.  

O que nos falta é vontade de mudar.  

Coragem para implementar reformas com alguma dor e com redução de privilégios de alguns a favor de milhões de utentes de um dos melhores serviços públicos de saúde do mundo. 

Não basta escolher um novo comandante para o ministério quando o primeiro ministro já disse que não altera a estratégia política e o rumo.  

António Costa tem na calha excelentes ministráveis desde logo o médico Lacerda Sales, atual secretário de Estado e braço direito de Marta Temido. Homem competente, dedicado e respeitado. 

Mas apostar na continuidade pode ser um erro com custos políticos. António Costa tem de fazer pela vida e não arrisca contrariar o seu invulgar otimismo. 

Se tivesse voz na matéria, apostaria no Doutor Fernando Araújo, atual administrador  do Hospital de São João, no Porto e antigo secretário de Estado-adjunto e da Saúde com o ministro Adalberto Campos Fernandes entre 2015 e 2018. 

Homem de poucas palavras e muita ação. É corajoso, desalinhado do sistema e tem o respeito dos profissionais de saúde e das ordens que os representam. 

António Costa conhece bem os méritos de Fernando Araújo mas será que terá a coragem de escolher um ministro desta fibra, que separa o trigo do joio ou vai querer farinha do mesmo saco? 

Opinião – Nelson Lopes  – Jornalista desde 1990. Gestor de Comunicação