Opinião/2022 A Redação Novembro 30, 2022 (Comments off) (284)

Opinião – O Futebol Primeiro

Os tempos estão bons para a indignação: o futebol está no centro das notícias, move paixões, multidões e fortunas, e o Mundial decorre por terras das Arábias, onde os estádios foram erguidos sobre as sepulturas de milhares de trabalhadores escravizados para os construírem. Além disso, o Qatar vive num modelo de sociedade onde as minorias são reprimidas e as mulheres são praticamente suprimidas. Portanto, não faltam motivos de controvérsia, a que se somam as inevitáveis viagens das mais altas figuras da Nação para acompanharem a Seleção e o Capitão Ronaldo, que tem feito correr rios de tinta.

Com uma guerra em curso e o Natal a caminho, ninguém se debruçou muito sobre uma operação da Polícia Judiciária que decorreu no Baixo Alentejo e “arrecadou” 35 figuras que viviam do tráfico de seres humanos. Os seres humanos traficados foram identificados e estão a ser apoiados.

E pronto, ficou tudo despachado no próprio dia, porque o que interessa noticiar é o futebol e os seus efeitos colaterais aqui no retângulo.

Como diz a gerações de miúdos mais novos, “só que não”! O que interessa noticiar é mesmo a questão de Direitos Humanos associada a estes dois campeonatos: ao Mundial de futebol e ao campeonato da produção agrícola, na qual Portugal é craque, abastecendo mais de metade do mercado europeu de frutos vermelhos.

Na hora de falar de números, toda a gente os tem na ponta da língua: exportamos milhões, temos ali muitos postos de trabalho, a agricultura de precisão dá cartas, a produção é excecional. Falar dos trabalhadores é que não dá jeito.

Não dá jeito porque isso expõe a falta de estratégias regionais para dar respostas às necessidades sazonais (nalguns casos, até são permanentes) do setor agrícola. Faltam estruturas alojamento e outra logística, faltam condições de acolhimento ao nível da saúde e educação, falta acompanhamento do ponto de vista burocrático, para assegurar o cumprimento de direitos e obrigações por trabalhadores e empresários. Como não há nada disto, fecham-se os olhos durante anos e de vez em quando organiza-se uma rusga.

A última não podia ter sido mais oportuna. Mas o foco das mais altas figuras do Estado estava noutro ponto do globo. Não em casa.

Portugal é um país da União Europeia e bate-se como um leão pelo cumprimento dos Direitos Humanos. Não pode fechar os olhos ao tráfico de seres humanos dentro do seu território, quando se sabe tão bem de onde vem a mão de obra que realiza o trabalho agrícola. Queixam-se os empresários que os portugueses não querem fazer nada. Não é verdade. Querem. Mas também querem ser pagos condignamente. E querem o direito ao seu descanso. E querem o cumprimento das obrigações sociais no que toca a impostos e segurança social. Tudo coisas que encarecem muito a pouca mão de obra disponível. Sim, é pouca. Por cada 100 jovens há 180 pessoas idosas. Talvez isto diga alguma coisa do estado da nossa pirâmide demográfica…

E porque é que eu abordo isto? Porque além de ser um tema que nos deve preocupar a todos, estamos no coração de uma região agrícola. Aqui também são precisos muitos braços para algumas atividades agrícolas. Para a apanha de fruta, por exemplo. E todos vemos as carrinhas do pessoal. Também vemos esse pessoal nas nossas ruas, ao final do dia, e ouvimos dizer que moram aos 20 numa casa algures. Estará tudo certo com essas pessoas?

Como é que essas pessoas vêm cá parar, às centenas? Quem está por detrás desse movimento de pessoal? Bem sei que isso pode esperar, porque agora é o momento do Mundial…

Opinião – La Salette Marques formou -se em Jornalismo em 1990. Depois de iniciar a carreira como jornalista na Rádio Ribatejo, passou pela Rádio Cartaxo e ingressou na Antena 1 em 1993.