Opinião/2022 Ana Mesquita Setembro 20, 2022 (Comments off) (206)

Opinião – Sub-Desenvolvimento

Fiz férias num desses países que colonizámos.

Bem, a par de uma simpatia generalizada e de um grau elevado de segurança, sentimo-nos muito acarinhados por quanta gente nos fomos cruzando.

É certo que algumas palavras não entendemos, talvez tenha sido melhor assim…

Adiante!

A paisagem que toda aquela natureza generosa nos proporcionou, era muitas vezes (para nós, demasiadas vezes) emporcalhada por montes de lixo deixados ao acaso: paredes meias com as habitações, à beira dos caminhos, nas ruas das cidades…

Os raros contentores que vimos, estavam cheios e os cães e os porcos, feitos respigadores, lá iam catando dos resíduos o alimento que lhes falta de outra forma.

Vimos, aqui e acolá, muito pouco, espaços parecidos com os nossos ecopontos: também cheios, também assaltados por cães e porcos, que também acabavam por espalhar tudo…

Falando com algumas pessoas, chegámos à conclusão de que a maioria da população até está disponível para colocar «no sítio certo» os resíduos que produz, o problema é que não há recolha de resíduos.

E pensando cá com os nossos botões, ficamos sem alternativas para o tratamento de tanto lixo, numa ilha com 859 quilómetros quadrados… dos quais a terça parte é ocupada por parques naturais ou sítios protegidos.

Bem, aquele é um país «subdesenvolvido», que ainda procura respostas para o que de mais básico (na lógica europeia) existe na comunidade organizada.

E nós por cá? Aqui em Portugal, aqui no Cartaxo?

Bem, não somos um país subdesenvolvido: temos instituições que funcionam (com acesso a livro de reclamações), poder central e local eleitos democraticamente (sem qualquer dúvida), escolas (onde faltam poucos professores e a maior parte até tem formação pedagógica adequada), hospitais (que às vezes ao fim de semana reencaminham os doentes, mas esses vão para outros hospitais), centros de saúde (que habitualmente fazem apenas o encaminhamento para hospital, e não funcionam todo o dia, nem noite) … e temos ruas asfaltadas (à volta dos buracos e irregularidades) é certo: porém, haviam de ver aquelas por onde viajámos …

E produzimos resíduos ao nível dos países mais desenvolvidos do mundo!

Mas como não somos “subdesenvolvidos”, existem espaços de recolha seletiva: contentores, ecopontos, ecocentros, e existe recolha desses resíduos: diária, na maior parte dos casos!!

Mas neste país, ou melhor, neste concelho do Cartaxo (para que não se generalize) tive necessidade de «deitar fora» uns plásticos de grande volume e mais umas coisas que já não me serviam para nada.

Lá vou eu ao ecocentro, e uma senhora ali presente, logo me indicou o contentor para onde devia deitar aquela tralha. No final, até me perguntou se não queria lavar as mãos, simpática!

Bem, meto-me no carro, regresso à rua do Arrodel e, logo na esquina com a rua general Humberto Delgado, a 100 metros do ecocentro, o centro de recolha seletiva de resíduos da cidade europeia do Cartaxo, dou de olhos com um monte de resíduos à volta do contentor do lixo, cheio, aberto e a extravasar…

Só faltavam os cães e os porcos!

Senti-me regressado àquele país «subdesenvolvido», de gente simpática e acolhedora, de belas praias e com uma floresta maravilhosa…

Não custava nada… e até podiam lavar as mãos!

Opinião – Mário Júlio: Professor do 1º ciclo no Agrupamento D. Sancho I, Pontével e dirigente associativo dedicado ao Teatro