Destaque Opinião/2022 Joaquim Palmela Agosto 5, 2022 (Comments off) (147)

Opinião – there is something in the water

O Pedro, do nosso imaginário de criança, é capaz de ter uma explicação. A vulgarização dos alertas e das expressões é um risco dispensável. E já o tínhamos percebido quando o Pedro, do nosso tempo de miúdos, evocava o “diabo” ao melhor estilo do pequeno pastor que gostava de assustar os aldeões. Já o Sr. Coelho, voltando ao nosso imaginário de criança, dizia-nos que o eterno, às vezes, dura apenas um segundo.

A banalização das expressões acusatórias, muitas vezes apenas difamatórias – crise, caos, fascista, xenófobo, autocrata, etc. & tal –, faz as palavras perderem força, embalam os destinatários e desiludem, por manifesta falta de adesão à realidade, toda a sociedade.

Os constrangimentos e decisões públicas, cujas amplitudes vão desde o serviço nacional de saúde à recolha de resíduos urbanos, do governo às juntas de freguesia, de despachos a leis, não podem, não devem ter um tratamento em tom exacerbado e sensacionalista, até porque, na generalidade dos casos, apenas se grita pelo “lobo”. E uma certeza podemos ter: assim como a recolha de resíduos não é caótica, o serviço nacional de saúde não está em crise. Não está tudo bem, com certeza que não. Há muito a melhorar, muito a fazer. Mas perdermo-nos em retóricas criativas apenas desvia o foco do essencial para o supérfluo. Ou seja, para aquilo que, parecendo eterno, dura, afinal, apenas um segundo. 

Se se tornou hábito dizermos que o mundo mudou a cada acontecimento regional, afirmá-lo num contexto de pandemia, guerra e seca à escala mundial não está a provocar o efeito de desassossego desejado. Sim, desassossego! Porque é ele que nos faz ser ousados e é sempre a coragem, misturada com alguma loucura, que nos obriga a superarmos as nossas capacidades e ultrapassarmos as adversidades.

Perante tudo isto, o que se pede aos protagonistas da vida pública, portuguesa, europeia e mundial, é capacidade de compromisso, de se concentrarem naquele chão comum que une as liberdades individuais aos interesses coletivos. Contudo, este é um pedido que pode e deve ser feito a cada uma e a cada um de nós, a todas e a todos que habitam um planeta cujo futuro ainda está nas nossas mãos: deixemos de olhar só para o “lobo”, pensemos no que o “coelho” diz e ousemos pensar, ousemos agir.

Opinião – Nuno Antão, autarca em Salvaterra de Magos desde 1993. Assessor de Comunicação «Comunicar é dividir alguma coisa com alguém».