Opinião/2022 Ana Mesquita Setembro 19, 2022 (Comments off) (297)

Opinião – Todos Somos Seca

Viajo no Ribatejo com temperaturas acima dos 35 graus em pleno agosto.

Há pivots gigantes a regar milho às três da tarde. No mesmo instante, na rádio passa um spot que apela à contenção no uso da água e pedem-me que feche a torneira enquanto esfrego os dentes.

Vou continuar a fazê-lo.

E vou encher o balde enquanto a água aquece na cabine de duche.

Continuarei a usar a descarga mínima no autoclismo.

Faço-o consciente de que a água que eu posso poupar é uma gota no oceano de desperdício.

A agricultura consome mais de 70% da água captada. E em tempo de seca extrema, continuamos a produzir milho e arroz como no tempo das vacas gordas. Com a conivência das entidades a quem compete regular o bom uso da água que, tal como o sol, quando nasce é de todos.

Não pensem que os agricultores são os únicos maus da fita. Nós consumidores e gestores dos nossos consumos também ficamos mal neste filme trágico.

Em média, cada português gasta 186 litros de água por dia. Estudos recentes revelam que podemos reduzir a média para 120 l/ dia sem grande sacrifício.

Continuamos a gastar muito mais que o estritamente necessário e só nos lembramos quando chega a fatura.

Achamos que numa família de quatro pessoas, 30 euros de fatura com água, saneamento e recolha e tratamento de resíduos sólidos (lixo) é um exagero mas pagamos sem bufar 50 euros pelo pacote de TV, Net e telefone fixo.

Só valorizamos a água quando abrimos a torneira e não cai pingo. Nesse instante percebemos que o valor da água é muito superior ao preço.

O combate ao desperdício deve ser um compromisso de todos.

É imperioso continuar a investir na requalificação das captações e dos sistemas de abastecimento com substituição de redes e equipamentos.

Intensificar o combate aos furtos de água e ao uso abusivo de água tratada para encher piscinas, regar ou lavar pavimentos.

Neste nosso Ribatejo, as perdas de água são superiores a 30% em média. Ou seja, da água captada e tratada com custos significativos, um terço não chega a passar nos contadores instalados. Não é faturada.

E quem paga esta água.

Todos nós, clientes das entidades gestoras. Sejam domésticos, comerciais, industriais, instituições ou autarquias.

Em Portugal desperdiçamos 194 milhões de metros cúbicos de água/ano.

Daria para abastecer mais de dois milhões de habitantes.

Um verdadeiro oceano de desperdício num tempo e num planeta onde cada gota conta.

Opinião – Nelson Lopes  – Jornalista desde 1990. Gestor de Comunicação