Opinião A Redação Novembro 27, 2023 (Comments off) (661)

“Os tiques nas crianças”

Dia Mundial das Doenças do Movimento assinala-se a 29 de novembro

Na idade pediátrica, a doença do movimento mais frequente é a perturbação de tiques, que inclui o Síndrome de Gilles de la Tourette, também conhecido como Síndrome de Tourette.

Os tiques são involuntários, podendo ser motores ou vocais (ou fónicos). Os tiques motores são movimentos rápidos, recorrentes e não rítmicos. Os tiques vocais são sons ou palavras repetidas frequentemente, de forma incontrolável. Podem, ainda, ser classificados como simples, sem propósito e envolvendo apenas um grupo muscular ou parte do corpo, ou complexos, quando envolvem vários grupos musculares, coordenados e por vezes com um propósito.

Os tiques motores podem manifestar-se de várias formas, como, por exemplo, pestanejar, movimentar a cabeça, sacudir os braços, saltar, tocar em objetos ou pessoas, movimentar todo o corpo. Já os tiques vocais ou fónicos podem ser reconhecidos, por exemplo, ao limpar a garganta, dar estalinhos com a língua, fungar, grunhir, imitar sons de animais ou palavras ou frases inapropriadas ou fora de contexto.

Habitualmente, os tiques surgem entre os 4 e os 12 anos de idade, atingem uma maior gravidade na adolescência e podem ser transitórios (duração < 1 ano) ou evoluírem para a cronicidade (duração > 1 ano). Geralmente, os tiques motores e vocais mudam de frequência, evoluem em complexidade e podem intercalar entre períodos de maior ou menor intensidade. Os tiques vocais podem surgir cerca de 1 a 2 anos depois dos motores.

A presença de tiques motores e vocais crónicos caracteriza uma perturbação neurológica denominada por Síndrome de Gilles de la Tourette (SGT). Os sintomas surgem habitualmente entre os 5 e os 18 anos, são mais frequentes no sexo masculino, e existe uma história familiar de SGT em 10-15% das crianças.

O diagnóstico de tiques e SGT é realizado por um neuropediatra, que se baseia na história clínica fornecida pelos pais e na observação em consulta (embora as crianças possam suprimir os tiques quando se sentem observadas). Os exames complementares habitualmente não são necessários para o diagnóstico já que este se fundamenta em critérios clínicos, mas são solicitados nalguns doentes para exclusão de outras patologias neurológicas que podem apresentar-se com perturbações do movimento, nomeadamente tiques.

A avaliação e o diagnóstico são fundamentais para a exclusão das comorbilidades mais frequentemente associadas à perturbação de tiques (particularmente à SGT), nomeadamente a Perturbação de Défice de Atenção e Hiperatividade (PDAH), Perturbação Obsessiva-Compulsiva (POC), Perturbação do Espectro do Autismo (PEA), perturbação de sono, dificuldades específicas de aprendizagem, cefaleias, perturbações psiquiátricas como ansiedade e depressão.

A intervenção na perturbação de tiques envolve a presença de neurologistas, psicólogos, terapeutas e psiquiatras, e baseia-se na psicoeducação e nas terapias cognitivo-comportamentais (psicoterapia, treinos de relaxamento, hipnose, …). Ocasionalmente, pode ser necessária terapêutica farmacológica para controlar os tiques, mas esta decisão é sempre individualizada e tomada em conjunto com a família. Na verdade, a família é um elemento-chave na abordagem à perturbação de tiques, uma vez que existem algumas estratégias para aplicar na rotina diária da criança, que ajudam a diminuir a intensidade e a frequência dos tiques. Estas incluem:

  • aprender a reconhecer os tiques, as situações que os desencadeiam, evitando-as ou usando fatores distratores;
  • evitar situações de stress e ansiedade;
  • ter uma boa higiene do sono;
  • praticar exercício físico;
  • dedicar tempo a passatempos desportivos, musicais.

Relativamente ao prognóstico desta perturbação, a maioria das crianças com tiques motores simples têm uma diminuição dos sintomas por completo, já as crianças com SGT podem manter os sintomas na idade adulta. No entanto, e dependendo da gravidade dos sintomas, a maioria das pessoas com tiques motores consegue ter uma vida normal na sociedade.

Artigo de opinião – Andreia Gomes Pereira, Neuropediatra do CNS – Campus Neurológico