Atualidade Sociedade Joaquim Palmela Julho 5, 2022 (Comments off) (245)

Por trás da lente de quem reporta: “A cobertura de uma guerra é importante, mas não justifica uma vida”

A guerra na Ucrânia apanhou-os de surpresa. Para José Peixe, fotojornalista freelancer, e Henrique Botequilha, repórter na Lusa, não houve tempo de preparação, partiram de imediato para o conflito, embora por motivos e contextos diferentes.

Depois dos Balcãs e Kosovo, José foi à boleia com a missão do “jornalismo humanitário”. Sem data de regresso, levou a roupa que usa habitualmente em Glória do Ribatejo, a sua terra, e as suas “meninas”, as máquinas fotográficas. Henrique já cobriu o Iraque, Timor e Moçambique, mas quando soube que estava escalado para a Ucrânia questionou-se se seria a pessoa certa. Era a primeira vez naquele território. Ter o apoio da esposa, igualmente jornalista e com experiência nestes palcos, fê-lo aceitar o desafio.

O editor da Lusa, a fazer 30 anos de profissão este ano, afirma que aquilo que os leitores leem é uma pequena parte do seu trabalho, porque por trás de uma reportagem num teatro de guerra há muito trabalho invisível. A preparação resume-se à palavra “logística”, realça.

Quando Henrique Botequilha apanhou o voo a 1 de março, a guerra já começara há mais de uma semana. Ao sair de Lisboa, a única coisa que sabia era que ia “para o leste da Polónia”. A falta de “equipas de produção para tratar da logística”, como nos “grandes órgãos [de comunicação] internacionais”, foi, segundo o repórter, a causa do problema. Henrique refere que teve de tratar de várias responsabilidades logísticas como: encontrar meios para chegar ao território, obter os documentos necessários, arranjar alguém que fale a língua e onde comer e dormir.

Outra particularidade da viagem foi que, em comparação à ida a outros palcos de guerra, agora o repórter é pai, algo que o deixa com responsabilidades e preocupações acrescidas. Apesar de admitir ser um argumento contraditório face à mais recente experiência, “a melhor forma de preparar os familiares e os amigos é através da própria preparação”. Além disso,

“conhecer bem o território é uma excelente forma de reduzir riscos”, explica.

Contudo, admite que a maior parte do seu dia não é passada “aos tiros, mas a planear”, e que não pensa muito nos riscos, priorizando o trabalho. “Não sou louco, não vou fazer coisas em que sei que estou a arriscar demais. Acho que a cobertura de uma guerra é importante, mas não justifica uma vida”.

Na viagem levou consigo o equipamento de trabalho, colete à prova de bala, capacete e telefone satélite. Este último, por receio de não haver comunicações, como em experiências passadas. “As comunicações são tudo no nosso trabalho, se ficamos sem equipamento não trabalhamos”, explicou o jornalista da Lusa.

Na Ucrânia, Henrique trabalhou com um jornalista ucraniano, um fixer, alguém que conhece a zona e que acompanha o jornalista. “Tinha uma confiança quase cega naquilo que ele me dizia, quando dava alguma indicação, como desligar o telemóvel, era para levar a sério”.

Os refugiados foram o que mais marcou o jornalista, “de um dia para o outro tiveram de sair do seu país”, aponta. Isto é algo que o afetou. “Vivenciar as consequências de uma guerra é pesado, estamos a lidar com pessoas em sofrimento”, acrescenta. Além disso, a destruição que presenciou “custa muito ver”, conclui.

Embora as marcas psicológicas sejam visíveis, Henrique Botequilha confessa que, uma vez que já conhece o terreno, será mais fácil voltar à Ucrânia caso seja necessário.

Largar as máquinas e agarrar o voluntariado

José Peixe soube pelas redes sociais que dois colegas estavam disponíveis para levar medicamentos até à fronteira de Medyka, na Polónia, o que o levou a inscrever-se como voluntário da associação HEROWS, a atuar na fronteira. A ideia era permanecer enquanto os colegas regressavam a Portugal. Seguiu, então, à boleia numa viagem de 47 horas.

O freelancer não partiu sem primeiro consultar a sua família: “Isto tem sido a tua vida, se tens coragem, não deixamos de gostar de ti”, disseram os seus filhos, sabendo as possíveis consequências desta ida. “Sabem que estou a lutar por um mundo melhor, para os filhos deles, os meus dois netos”, defendeu José, que acrescenta ter recorrido, também, aos conselhos dos amigos mais íntimos.

Devido à sua idade e saúde frágil decidiu consultar Oleg, o seu médico em Glória do Ribatejo. “Eu acho que é uma loucura você ir, porque está longe de saber do que os russos são capazes, mas não o posso impedir”, argumentou o médico ucraniano. Oleg receitou-lhe ansiolíticos e medicamentos para a tensão. O AVC sofrido há uma década fez com que José ficasse reformado por invalidez. Por tudo isto, passar para lá da fronteira [para a Ucrânia] “não podia ser uma tentação”.

A sua prioridade era ser jornalista humanitário. Antes de tirar uma foto, ajudar a população naquilo que podia. “Pegar num idoso e pô-lo numa cadeira de rodas, dar comida à boca de uma senhora que não consegue comer sozinha, dar biberão a um bebé, jogar à bola com um menino que nem sabe que perdeu os pais, e abraçar gente a chorar”, descreve José.

As primeiras noites foram passadas na estação de caminho-de-ferro de Przemyśl, na Polónia, em sacos de cama ao pé dos refugiados. O fotojornalista conta que foram vários dias sem tomar banho e mudar de roupa, as filas para as necessidades mais básicas eram longas. A escassez de recursos era evidente e problemática, para além das condições climatéricas não ajudarem, caraterizadas pelo frio intenso e temperaturas negativas.

No momento da entrevista, José Peixe estava em isolamento por uma infeção por Covid-19, mas isto não afetou a sua motivação e vontade de ajudar. Ao chegar ao centro de acolhimento humanitário de Tesco, em Przemyśl, e a poucos quilómetros da guerra na Ucrânia, o fotojornalista não queria acreditar no que via, cerca de seis mil e quinhentas famílias a serem registadas à mão. Não havia meios para lidar com tantas pessoas. Os dias do freelancer passavam por registar famílias. O processo foi facilitado por uma empresa do Porto, que doou material informático.

Presenciar estes conflitos afetou-o de várias formas. Neste momento, o fotojornalista tem uma “necessidade quase diária de ansiolíticos” e pondera “procurar um psiquiatra”. José Peixe, apesar de conhecer as consequências, acabou por não resistir e passou a fronteira para a Ucrânia, tendo estado em Lviv, zona de bombardeamentos. Neste momento, encontra-se em Portugal. Para o futuro, fica o desejo de escrever um livro sobre a guerra.

Escrito por:

Rafael Dutra

Valentina Guedes

Foto: José Peixe