Atualidade Cultura Joaquim Palmela Agosto 22, 2021 (Comments off) (370)

Samora prepara homenagem no centenário da morte do Ginguinha

Cem anos depois da sua morte, os restos mortais do poeta e fadista Ginguinha regressam a Samora Correia, a terra onde nasceu e cresceu sem nunca ser menino.

Um mausoléu será erigido para perpetuar a memória do artista que não sabia ler nem escrever mas jogava com as palavras para divertir pescadores e campinos.

Trago comigo um desejo, Que vos vou dizer agora, Atravessem comigo o Tejo, E levem-me para Samora.

Foi esta a quadra declamada dias antes da sua morte que motivou a poetisa popular Piedade Salvador e o investigador António Cardoso a avançarem com o processo de transladação dos restos mortais de António Ginguinha para a sua terra natal. “Estamos a cumprir o que ele tanto pediu. O seu lugar é em Samora Correia”, adianta Piedade Salvador.

Boémio irreverente, poeta, cantor. Nasceu em Samora Correia em 1865 e foi na margem do rio Almançor que improvisou as primeiras quadras que cantou ao desafio em pândegas e farras com os homens do rio ou os campinos que apesar das rivalidades juntavam-se ao final da jorna na rua do rio e na atual zona ribeirinha de Samora.

António dos Santos ´Ginguinha` foi um dos mais conhecidos cantadores num ritmo a que mais tarde chamaram fado. O poeta que não sabia ler nem escrever cresceu em Samora Correia até aos 12 anos quando morreu o pai, deixando oito filhos órfãos. Trabalhou nos barcos de transporte de mercadoria e partilhou a sua vida nas margens do Tejo em Vila Franca de Xira e no Barreiro. Voltaria a Samora em adulto para tentar a sua sorte.

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Sala 2

Ginguinha morreu aos 56 anos em Vila Franca de Xira onde trabalhava para a casa de José Pereira Palha Blanco, o agricultor e ganadero que deu nome à Praça de Touros de Vila Franca. Foi um homem de elevado humanismo e nobreza. José Palha pagou o funeral de Ginguinha sepultado no cemitério da vila após um cortejo fúnebre com centenas de amigos e admiradores.

Cem anos após a sua morte a 19 de agosto de 1921, um grupo de samorenses coordenado por Piedade Salvador e António Manuel Cardoso prepararam uma homenagem que perpetue a memória de Ginguinha no cemitério da sua terra. As ossadas do poeta já estão à ordem da Junta de Freguesia de Samora Correia que irá colaborar na edificação do mausoléu.

“Foi um longo percurso para chegarmos a esta fase. A Câmara Municipal de Vila Franca, responsável pelo cemitério onde está sepultado, colaborou desde o primeiro momento e contamos com apoios da autarquia de Samora e de mecenas para a construção do monumento simples à imagem do Ginguinha”, explica António Cardoso.

Foram muitas as vivências de Ginguinha na vila de Samora Correia onde se estabeleceu numa taberna ao cimo da rua Larga, atual rua 31 de janeiro, onde correm touros bravos nas festas de agosto. Ginguinha

Rapaz franzino mas de raça, nunca frequentou a escola e preocupava-se em ajudar os pais e os irmãos mais novos

“O pai António dos Santos trabalhava nos barcos que faziam a ligação de Samora com Vila Franca e Lisboa. A vida familiar, como a de quase todos, na época era de pura sobrevivência, trabalhava-se para comer. Cedo começou a acompanhar o pai nos barcos, contribuindo desta forma para melhorar o sustento da família”, explica António Cardoso que se dedica a investigar o artista há mais de dois anos.

A vida do poeta popular e cantor de improviso está ligada às zonas ribeirinhas. Logo que desembarcava da fragata, via-se atraído pelas tabernas e os retiros, onde perdia a noção do tempo a cantar e a improvisar até alta madrugada.

O seu aspeto frágil com um andar bamboleante do tipo ginga, levaram a que lhe começassem achamar de Ginguinha. E assim nasceu o nome artístico.

O poeta irritava-se quando lhe chamavam “Ginginha” ou “Ginguinhas”.

Poetas, fadistas e cantores admiravam o popular Ginguinha e usavam os seus poemas e fados em festas populares.

Na lápide colocada por um grupo de amigos e admiradores no cemitério de Vila Franca lê-se “à memória de António dos Santos Ginguinha, saudoso cultivador da canção nacional”

Linhares Barbosa, figura incontornável do universo do Fado, o “Príncipe dos Poetas” perpetuou a memória do Ginguinha com um fado que ainda hoje é cantado pelos fadistas mais clássicos, tendo sido imortalizado pelo conceituado fadista e poeta Manuel de Almeida.

Ouvi cantar o Ginguinha

Numa taberna de Samora

Cantar à história e ao moiro

Até ao romper da aurora…

Texto: Nelson Lopes